CPI do tititi - TT Catalão
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quarta-feira, 31 de março de 1999
TT Catalão 
Uma boa briga é assim: sabemos como entrar e não temos a menor idéia do que fazer para sair. Uma comissão parlamentar de inquérito, a famosa CPI, idem. Se ficar pela metade, fica desmoralizada. Se vai até o fundo - o que é moralmente recomendável -, tende a mexer em vespeiros que desagradem o sistema. E o povo não admitirá mais pizza depois de cívicas e exemplares condenações realizadas no Congresso Nacional.
A atual profusão de CPIs tanto reflete o amadurecimento democrático do país quanto funciona como a principal arma de esvaziamento da opinião pública: a saturação. Ter demais é melhor que nenhuma. Mas ter uma de cada vez ajudaria na concentração.
Duas CPIs - Câmara e Senado - para um mesmo tema, o sistema financeiro, alinhadas ao explosivo potencial da CPI do Judiciário, vão gerar um gigantesco tititi na mídia. É fácil imaginar a tamanha confusão diante de inúmeras manobras técnicas, dossiês fantásticos - só de fachada -, discursos inflamados para a platéia e justificativas financeiras intrincadíssimas, só para os raros. Vai ser o maior desafio de comunicação da mídia brasileira traduzir tantas manhas e artimanhas políticas e jurídicas.
No momento, primeiro, é urgente o entendimento entre o deputado Aloizio Mercadante (PT-SP) e o senador Jader Barbalho (PMDB-PA) para uma CPI mista ou a instalação em uma só Casa. Duas, sobre o mesmo tema, não pode ser. O artigo 58, parágrafo 3º da Constituição, é claro em permitir uma CPI em conjunto, mas nunca separadas investigando o mesmo tema. E mais, determina que uma CPI só pode ser instalada para apuração de fato determinado e com prazo certo para acabar. E até agora os tais fatos determinantes estão nebulosos.
A pergunta é: se o Senado tem a ofensiva da CPI do Judiciário, por que não deixar para a Câmara a CPI do sistema financeiro? Talvez seja aí que o tititi se instale definitivamente. Voltamos ao alerta: Começar uma CPI é razoavelmente simples; como ela vai acabar e quem estará nela enredado é que não se sabe.
Deixar com a oposição tamanho material inflamável - desvios no sistema financeiro, lucro abusivo, favorecimento de informações estratégicas, possíveis propinas, ajudas extraordinárias em campanhas - poderia ser um risco com alto poder de contágio.
Seja qual for a solução, o país descobre que os esqueletos já não guardam mais o silêncio dos armários. Os corpos vão sendo desenterrados em cemitérios clandestinos ou oficiais. E há uma indiscutível busca por luz.
Atrever-se às trevas!
Por mais que apagões eventuais insistam em nos avisar dos acidentes no caminho. Comecem as CPIs e se acabem os temores. Quem teme crises não cresce. Começar uma democracia é extremamente difícil, construí-la é tarefa árdua, consolidá-la é compromisso diário e torná-la ampla, geral e irrestrita é mais que um slogan: é a saída para os cúmplices do futuro solidário. Com ou sem tititi.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília


