CPI das Drogas
Rubem Azevedo Lima
Ao final do quinto ano de governo, o presidente Fernando Henrique Cardoso, com a popularidade em baixa, aceitou carona da CPI do Narcotráfico e posou de papagaio de pirata entre os deputados que investigam os subterrâneos do universo das drogas no País. Mas FHC pode ter cometido sério erro de opção política e publicitária.
Durante a campanha de sua primeira eleição, o próprio candidato a presidente prometeu melhorar as condições de segurança pública para combater a criminalidade crescente no Brasil. À época, o narcotráfico já era, sem dúvida, o mais grave crime a enfrentar, pois se infiltrava em todas as camadas sociais e atingia principalmente os jovens, destruindo-lhes as energias morais e comprometendo sua capacidade produtiva.
Outro compromisso pré-eleitoral de FHC foi a redução do desemprego. Esse problema, porém, continuou a agravar-se após sua posse na Presidência, em janeiro de 1995. A supressão quase total de barreiras às importações e a política de juros altos e de câmbio irrealista desmantelaram, na prática, o parque industrial brasileiro. Por isso, o Brasil passou a grande exportador de empregos para o primeiro mundo.
O governo FHC não resolveu nenhum dos problemas acima referidos. Quanto ao narcotráfico, limitou-se a adotar medidas tópicas e conjunturais, com raros resultados positivos. E o desemprego passou a ser considerado, entre nós, reflexo natural e inexorável da realidade mundial.
Na verdade, porém, quase já não existia, então, desemprego nos Estados Unidos, país cuja economia é a maior beneficiária da globalização do neocapitalismo selvagem, graças às barreiras que protegem sua produção. Ainda assim, no plano interno, tais proteções não impediram que crescesse a distância entre ricos e pobres e que o exército de desempregados nos EUA fosse formado majoritariamente por minorias negras e chicanas.
Mas, no caso das drogas, a suposta – na realidade injusta – sociedade americana de bem-estar era, e continua a ser hoje, seu maior centro mundial de consumo. Nesse particular, portanto, o governo dos EUA, mais rico, bem dotado em termos tecnológicos e com pessoal especializado no combate ao narcotráfico, não conseguiu resultados melhores do que o Brasil.
Além da publicidade que propicia, que significa o engajamento de Fernando henrique na luta da CPI contra as drogas, como se pudesse resolver, em seu segundo governo, o que vários governos americanos ainda não resolveram? O apoio do presidente à CPI está certo, mas faz lembrar as CPIs importantes que ele vetou e os compromissos políticos que não cumpriu. Por que não solucionar, logo, de modo socialmente mais justo, o que os americanos só resolveram, em matéria de desemprego, com graves injustiças?
Para dar emprego a todos, no Brasil, sem discriminações raciais, étnicas e religiosas, o País teria de mudar o modelo econômico antinacional e também iníquo que pratica. E atacar a causa e não os efeitos das violências. Um desses é o narcotráfico, atividade assassina, sim, que faz vítimas sem conta, mas, infelizmente, proporciona a única renda aos brasileiros social e economicamente excluídos. A recuperação dos valores nacionais perdidos é julgada retrocesso e não populariza ninguém.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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