Cotas de dignidade - TT Catalão
Cotas de
dignidade
TT Catalão
Todos os homens são iguais, mas a maioria tenta sobreviver com o salário micro, sem falar nos que nem salário recebem. Fazer gracinhas com a tragédia serve para o cinismo pós-moderno da alienação cult, mas encobre o drama de mais uma manipulação sobre o que é básico e o que é supérfluo.
Aumentar o poder de compra do povo entra em tantos cálculos que projetam tantos números, índices e impactos que até nos esquecemos dos seres humanos existentes por trás das tabelas. Neste mínimo falou-se mais no impacto sobre as contas da Previdência que na atitude concreta em controlar tais gastos. Falou-se mais no possível impacto sobre a inflação (que só surgiria no cálculo do IBGE) que na possível melhora da qualidade de vida das pessoas.
Ao classificar como engenhoso o artifício governamental, ocorre o parentesco do termo com maquiavélico. O governo, sagaz, achou um número mágico e devolveu a provocação humanitária do rico PFL com o índice liberado aos estados. Foi quase uma louvação aos estrategistas da fome. Prova de que a mídia anda mais submissa à forma que ao conteúdo efetivo sobre a vida das pessoas.
Até o flagrante atropelo sobre a comissão parlamentar que estudava uma proposta foi esquecida ante o engenhoso truque prestidigitador de consciências. Renasçam logo o patético Mister M para as contas públicas. O episódio dos R$ 151 em pseudolitígio com os R$ 180 manteve aceso o deboche axé do esse pobre é meu, eu vi primeiro.
O fato ainda encontrou eco nas declarações dos traficantes Fernandinho Beira-Mar e Marcinho VP no início da semana, indignados com a extorsão da polícia carioca sobre seus bens: o credcrime. Mais estarrecedor quando o sociólogo Luiz Eduardo Soares, ex-coordenador de Segurança do Rio, classificou em cotas de dignidade a eficiência dos policiais corruptos: de cada cinco que prendem um é solto mediante negociações. Luiz está saindo do país com a família pelas ameaças. Talvez encontre nos EUA um outro sociólogo, Caio Ferraz, criador da Casa da Paz em Vigário Geral que após a chacina precisou sair do país para não ser morto. Caio vivia sob tanta pressão que, aqui em Brasília, se recusou ao tipo de proteção policial a ele oferecida e viveu seus últimos dias de Brasil na residência de um amigo.
É o terror das cotas de dignidade. Você não tem certeza do quanto o sistema atingiu o ponto seguro ou ainda tem margem para negociar com bandidos. Tempo para refletirmos se também nós não vivemos, fragmentados, em cotas. Ora somos justos e ora não somos, pois criamos artifícios engenhosos para driblar a consciência. Esta ora reage ao escárnio, ora adormece cheia de justificativas técnicas que nos narcotizam em infame bom senso. Como este mínimo. Como o credcrime. Como aceitar que gângster fique impune ao ameaçar pessoas. Como calar quando a hora é de falar e agir!
TT CATALÃO é jornalista em Brasília





