CORRUPÇÃO ENDÊMICA - A distância entre a consciência e a prática
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quinta-feira, 05 de agosto de 2010
Paula Costa Bonini<BR> Reportagem Local 
Receber o troco a mais e ficar com o dinheiro. Concordar em pagar propina para não ser multado. Vender o voto. Essas atitudes são desvios éticos. Deveriam provocar perplexidade e vergonha. No Brasil, no entanto, fazem parte da rotina. Um exemplo recente do enraizamento da cultura que prega que o ''ideal é levar vantagem em tudo'' foi o episódio da morte do músico Rafael Mascarenhas, 18 anos. O acidente com o filho da atriz Cissa Guimarães resultou na prisão de dois policiais cariocas, que receberam propina para liberar o autor do atropelamento. Punição que talvez não tivesse se concretizado se a vítima não fosse parente de uma celebridade.
Para o professor Clodomiro José Bannwart Júnior, do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), considerar a corrupção um fato normal e rotineiro é uma atitude que ''anestesia a consciência moral'' da população. ''O brasileiro tem a consciência do que é correto, mas entre a consciência e a prática existe um distanciamento'', aponta.
Qual é o prejuízo que a ''cultura da propina'' traz para o País?
A propina está diretamente vinculada à corrupção, não devendo ser entendida apenas como um tema de política e de polícia. É um tema ético. A sociedade brasileira, sobretudo o campo empresarial, não se deu conta o quanto a falta de ética compromete o lucro. Somente o comércio ilegal de CD e de DVD pirata traz um prejuízo de cerca de R$ 1 bilhão para o comércio legal. Diversos setores acabam perdendo: o comércio, o governo e a população, que poderia ter esse dinheiro revertido em investimentos públicos.
O brasileiro cobra conduta ética dos governantes, mas nem sempre age de forma correta. Muitos aceitam pagar propinas, vendem o voto ou ficam com o troco que foi devolvido equivocadamente. A cultura da corrupção é culpa de todos?
Não é culpa de um determinado segmento social. O esquema do ''pagou, passou'' está impregnado na nossa cultura. Muitas pessoas conseguem as coisas porque pagam pelo serviço e não por mérito. Isso acontece, por exemplo, para tirar a carteira de motorista, para entrar na universidade, para ter benefício de um órgão público etc. E aí, quando aparece um candidato comprando voto, não há tanto estranhamento. Essa conduta está ''naturalizada'' na sociedade. Isso acontece diante de pessoas que têm uma necessidade material muito grande e que acabam desmascarando o sentido político do voto, atribuindo a ele um valor privado. Isso também acontece diante da perda de esperança na política. Uma parcela da sociedade não acredita que a política é um instrumento que alavanca mudanças sociais. A falta de esperança descaracteriza a essência de fazer política.
As pessoas já consideram a corrupção como um comportamento normal?
Sim e isso é um grande problema. Quando as coisas se tornam normais cria-se uma anestesia da consciência moral e as pessoas ficam impotentes para reagir diante de condutas equivocadas.
E o que fazer para mudar esse panorama?
Tem um pensador alemão que diz que nós conseguimos aprender com as catástrofes do século XX. Se, por um lado, esse século foi marcado por calamidades - nazismo, fascismo, regimes totalitários, bombas atômicas etc -, por outro, permitiu discutir o conceito de direitos humanos. Nós não podemos olhar de forma totalmente negativa, caindo na descrença.
Mas como tirar as pessoas do comodismo e incentivar a participação nas questões de interesse público?
Precisamos reativar o espaço de debate das questões públicas na sociedade brasileira. As pessoas têm interesses privados e não se ocupam com o que é público. O incentivo à participação deve acontecer em casa, na escola, nas universidades. Além disso, as pessoas devem ler mais para ter uma inserção maior no debate nacional. Um dos grandes agentes promotores da atividade política são os partidos, mas hoje não temos mais uma ideologia que separa o que é de esquerda e o que é de direita. Isso cria uma confusão muito grande para o eleitorado. Atualmente há um esvaziamento dos partidos políticos, da esfera pública, da participação popular etc.
O quanto a sensação de impunidade colabora para que a sociedade não participe do debate sobre as questões públicas e serve de incentivo para que o povo cometa atos incorretos?
O que paira no ar realmente é a sensação de impunidade. A pessoa vende seu voto porque precisa de dinheiro e porque essa atitude não vai levá-la a nenhum tribunal. Se isso se dá no baixo escalão, imagine o que acontece nos patamares mais altos da sociedade.
Mas o brasileiro é um povo corrupto por natureza?
Uma pesquisa realizada no ano passado mostra que o brasileiro tem um senso aguçado de ética. Se nós, enquanto povo, colocássemos em prática a consciência que temos sobre os valores morais, seríamos uma nação altamente qualificada. O brasileiro tem a consciência do que é correto, mas entre a consciência e a prática existe um distanciamento.


