Enquanto os homens públicos brasileiros cercam-se de todas as defesas possíveis quando denunciados por corrupção e contra-argumentam com a desfaçatez das mentiras, no Japão o ministro corrupto deixa uma carta pedindo desculpa ao povo antes de pôr termo à própria vida. E, trágica que seja a informação, ontem os jornais do mundo estamparam que também um auxiliar daquela autoridade, igualmente envolvido, não suportou haver sido descoberto e repetiu o gesto extremo do chefe. Esses fatos, tristes para os japoneses, geraram uma crise no Governo e isto demonstra que tais episódios - não os suicídios mas a corrupção - desestabilizam também o sistema governamental.
E no Brasil, a temporada não ficou sem novo escândalo, porque é a vez de Renan Calheiros, presidente do Senado. Acusado, também, de ligação com o caso da empreiteira Gautama, é agora denunciado por receber dinheiro de um lobista de empreiteira. Nada tão volumoso porém, de qualquer modo, caracterizando corrupção. Tratando-se do presidente da alta casa do Congresso, qualquer desvio de conduta é sempre grave. Os adversários estão lhe pedindo não um ato extremo, mas que renuncie ao cargo da presidência, como forma de salvar o decoro parlamentar. Um zelo que nunca foi preocupação dos parlamentares mas que se manifesta em ocasiões oportunas para execrar rivais políticos. Como faz agora Heloisa Helena, a ex-senadora da mesma Alagoas de Calheiros.
A nação inteira se pergunta quando se esgotarão todos os casos de corrupção, porque o que vem acontecendo é a revelação de histórias que não são de hoje. Imagina-se que neste momento novas irregularidades do gênero estejam se plasmando ou acontecendo e que, eventualmente, irão aflorar mais adiante. Lembre-se que na recente Operação Navalha foi descoberto que já estavam sendo articuladas formas de superfaturamento de obras que viriam no bojo do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, nem ainda em execução. Tem-se a impressão de que uma poderosa máquina de corrupção ativa e passiva esteja em permanente vigilância, para detectar os pontos onde dar os golpes fatais.
Pode ocorrer de Renan Calheiros nem deixar o cargo e nem ser cassado, porque seu PMDB é hoje muito forte e tem poder de fogo para deter avanços nesse sentido. Mas isso enodoa ainda mais o Congresso e robustece o asco dos cidadãos pelos políticos. Isto é ruim para um povo pelas repercussões negativas sobre a credibilidade das instituições, especialmente nas relações externas da diplomacia e dos negócios.

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