Contrariando o postulado do direito de que a quem acusa cabe o ônus da prova, a ironia popular diz que, tratando-se de políticos brasileiros, a quem é acusado cabe o ônus de defender-se. Chega a esse ponto a incredulidade acerca dos homens públicos deste país, não obstante as exceções, que é sempre necessário exaltar. A tomada de depoimentos nas CPIs converte-se num palco nacional do tipo BBB, que vai tirando das fileiras do anonimato muitas pessoas convocadas a depor e as torna conhecidas e mencionadas por todos os veículos de comunicação, com a geração de grande tumulto. Soraya Garcia, a mais nova depoente-mulher da CPI dos Bingos, coloca no paredão, agora em rede nacional, dois políticos paranaenses: o ministro Paulo Bernardo e o deputado Luiz Carlos Hauly. Os dois, por conta das denúncias da ex-assessora financeira da última campanha do PT em Londrina, agora se engalfinham em ataques e contra-ataques. É então que a opinião pública, confusa no meio desse tiroteio, espera que os acusados provem que são inocentes. Enquanto as declarações de Soraya circunscreviam-se ao arraial doméstico, o caso não desfrutava de grande 'audiência', até que ela apareceu no grande palco, e o que não era notícia relevante passou a ser. Soraya já está na constelação das estrelas de transitória resplandecência que, por uma razão ou outra, têm sido focalizadas nos últimos tempos pelo canal das CPIs. O ministro foi acusado de participar de uma esquema de caixa-2 na campanha eleitoral, e Hauly (PSDB) de haver solicitado dinheiro para um enventual apoio ao então candidato petista à reeleição, o prefeito Nedson Micheleti. Isto é o que 'consta dos autos', como se diz na linguagem jurídica para não deixar dúvida de que foi dito e escrito e é de domínio público. Enquanto o episódio vai se desdobrando, vem a público ainda contra os políticos, e de novo eles uma lista (em poder da Polícia Federal) de 156 deputados acusados de abastecer seus caixas paralelos de campanha, por intermédio de um ex-diretor da estatal Furnas Centrais Elétricas. Acusação de nenhum outro senão o deputado federal cassado Roberto Jefferson, o que denunciou o mensalão e outras negociatas mais, envolvendo colegas congressistas. Com o episódio, ocorre uma nova disseminação de suspeitas sobre tudo e sobre todos e, pelo conceito do povo, quando se trata de acusação contra políticos cabe a eles o ônus de provar inocência. Tantas são as evidências de ser verdade tudo quanto é denunciado contra os círculos do poder, que a opinião pública não duvida de mais nada. É o espetáculo dos escândalos convertendo-se em sinistra atração, por dominar as atenções da população estarrecida.

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