Corrida sucessória José Eduardo Andrade Vieira O período eleitoral, infelizmente, vem se caracterizando no Brasil como aquele em que todos se unem para destruir todos os outros. O que interessa é ganhar. A qualquer preço, não importa a que custo. Talvez por isso cada vez mais as pessoas de bem se afastam da política. Mas a corrida às urnas não pára, e no Paraná não é diferente. Aqui, a fragilidade das possíveis candidaturas ao governo do Estado em 2002 já obriga àqueles que pretendem disputar o Palácio Iguaçu iniciar a costura de alianças nos maiores colégios eleitorais do Estado como forma de fortalecer suas próprias campanhas. Não se trata, na verdade, de nenhuma estratégia repentina. No Paraná sempre foi assim. Ocasionalmente, a distância política do Interior com a Capital abre hiatos difíceis de serem transpostos, ou apresenta ciclos de aproximações temporárias. Nas eleições de 2002 o quadro é de distância perigosa, significando mais uma vez que o Interior será o alvo cobiçado por aqueles que querem substituir o governador Jaime Lerner (PFL). Ainda se faz presente na memória dos candidatos o peso decisivo do Norte do Paraná, capitaneado por Londrina, no último pleito estadual, fazendo a diferença em favor de Lerner. Londrina é justamente o palco em que as grandes estratégias políticas da eleição para prefeito, este ano, foram desenvolvidas e colocadas em prática já há algum tempo, antecipadas pela própria realidade vivida hoje pelo município. Pela importância do colégio eleitoral, influência que Londrina exerce sobre municípios vizinhos e o custo dos palanques para comícios, a liderança do prefeito sobre o pleito de 2002 será decisiva para definir quem será o futuro governador do Estado. Surgem estratégias de um jogo de xadrez pitoresco, que exige a atração de aliados, a desqualificação de adversários e dissimulações típicas da fase pré-eleitoral, cujo cenário é bem diferente da campanha eleitoral propriamente dita. Para que a oposição tenha chances reais nas eleições de 2002 será preciso, em primeiro lugar, conquistar ampla margem de vitória no pleito deste ano. No caso de Londrina, PSDB, PMDB, PFL e PT despontam na linha de frente das articulações e comparecem ao jogo político com o raciocínio voltado igualmente à disputa para governador e dispostos, portanto, a valorizar agora suas atuações. Os opositores do atual prefeito, Antonio Belinati (PFL), tentarão desestabilizar sua eventual reeleição, por tratar-se de candidato fortíssimo, com altos índices de aprovação popular nas pesquisas de opinião até agora realizadas. Tão forte se apresenta o nome do prefeito que disputar a eleição contra ele seria suicídio político. Vale lembrar que em 2002 também teremos eleição para senador, com duas vagas. Um dos principais personagens neste tabuleiro é o senador Álvaro Dias (PSDB), candidatíssimo ao governo do Estado, que tem interesse em eleger um futuro aliado para prefeito de Londrina, buscando sustentação para sua campanha ao Iguaçu. Uma de suas alternativas seria o deputado federal José Janene, para trazer o apoio do PPB (tempo de televisão) e apoiar o deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB) para uma das vagas ao Senado. Ou vice-versa, numa solução de conveniência difícil de explicar aos tucanos mais ortodoxos, mas plausível aos setores mais pragmáticos que mantêm irresistível atração pelo poder. O deputado federal Alex Canziani, outro prefeiturável, se filiou ao PSDB alimentando a expectativa de que os planos de Álvaro não se concretizem e fique para ele a vaga da candidatura a prefeito. Já o senador Roberto Requião (PMDB), que igualmente sonha em retornar ao Palácio Iguaçu, poderia contar com o apoio do PT. O ex-prefeito Luiz Eduardo Cheida (PMDB) é um nome com trânsito em todas as áreas políticas. Seus adversários dizem que lhe falta carisma junto ao eleitorado. Ele comandou uma administração acidentada, mas saiu ileso de acusações vis. Com Belinati fora do páreo, aparece bem nas pesquisas. Se a desistência de Belinati for mesmo para valer, buscando resguardar-se e talvez voltar como candidato ao Governo em 2002 ou até mesmo a prefeito em 2004, abre um flanco aos adversários difícil de ser preenchido. A vice-governadora Emília Belinati, que capitalizaria melhor do que ninguém a herança política de Antonio Belinati, não parece em condições de enfrentar uma campanha que promete ser das de mais baixo nível já registrada na história de Londrina, e tão pouco isto interessaria a Antonio. É esperar para ver. O cenário da sucessão está armado. O botim (poder e dinheiro) alimenta paixões inconfessáveis que são a mola propulsora de cada movimento no jogo de xadrez político. Para os candidatos ao Governo do Estado é da maior importância contar com aliado na prefeitura de Londrina, da mesma forma que precisam de nomes fortes para disputar as prefeituras de Curitiba, Ponta Grossa, Cascavel e Maringá. Mas esta é uma outra história, que voltaremos a comentar em breve. Enquanto os candidatos se armam em conchavos e acordo tácitos, implícitos ou explícitos, o povo aguarda que apareça alguém que os lidere, mas sem conchavos, sem artimanhas e com transparência. Os políticos estão, como se vê, na ordem do dia. Mas, acima deles, despontam questões que exigirão sua atenção e prioridade nos cargos que almejam, como o desenvolvimento do Paraná, a supressão da pobreza e a luta contra o desemprego. JOSÉ EDUARDO ANDRADE VIEIRA é ex-ministro, ex-senador e diretor-superintendente da Folha de Londrina/Folha do Paraná