Corrida presidencial - O desafio de parecer uma candidata viável
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sábado, 23 de agosto de 2014
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
Marina Silva, a candidata do PSB à Presidência que herdou o posto após a trágica morte de Eduardo Campos, vive dias agitados. Ao mesmo tempo que se preocupa com o processo de substituição do staff que acompanhava o ex-governador de Pernambuco, a ex-senadora do PT e ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula se dedica ao diálogo com possíveis novos aliados, ao mesmo tempo que descarta apoios firmados por seu antecessor. Sem contar, a agenda de uma campanha cuja circunscrição engloba um país continental. Um desafio hercúleo, muito além da singela tarefa de pedir votos.
Para entender o momento histórico que agita a corrida presidencial, a FOLHA conversou com Wagner de Mello Romão, professor de ciência política no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo e natural de Santo Antônio da Platina (Norte Pioneiro).
Para o cientista político, Marina tem potencial para aglutinar toda a insatisfação manifestada nas ruas em 2013 mas terá que lidar com uma conjuntura bem mais hostil que em 2010.
O que a morte de Eduardo Campos altera nas campanhas dos outros dois principais candidatos à Presidência?
Para o Aécio, afeta fortemente. Ele era um virtual adversário da presidente Dilma no segundo turno e agora passa a enfrentar uma dificuldade muito maior, como aponta a última pesquisa. Já para a candidata Dilma, está cada vez mais evidente a perspectiva de ter que disputar o segundo turno.
Logo após o acidente, Marina Silva declarou que o fato dela não estar no avião se explicava por uma "providência divina". As circunstâncias podem tornar a candidata do PSB a predestinada da campanha?
Para parte do eleitorado, diria que sim. A política está sempre permeada, de certo modo, de algum tipo de predestinação. Historicamente, vários personagens políticos ganharam esta alcunha. Para ficar em um plano mais recentemente, o próprio Lula e o Fernando Henrique Cardoso, autor de um livro chamado de O presidente acidental. No caso da Marina, há também um outro componente que reforça a predestinação, que foi a escolha pelo PSB quando o prazo para a filiação estava se esgotando. Segundo consta, foi uma decisão de um ou dois dias.
Até o acidente, Marina era o quadro mais conhecido da chapa. Hoje, o eleitorado se aproximou de Campos a ponto de Marina reconhecer que o "país passou a conhecer Campos". Como administrar um legado e a sua própria história ao mesmo tempo?
Isso é uma questão muito mais interna do PSB do que algo que vai refletir no eleitorado. Claro que é uma perda irreparável para o PSB, mas a presença da Marina na cabeça de chapa é um ganho para a coligação. A possibilidade dela chegar ao segundo turno é muito maior que a dele. E a possibilidade de Marina vencer Dilma no segundo turno é ainda maior em comparação com as chances que Campos teria. Na verdade, a morte dele permitiu à nova chapa a chance de um recall da candidatura de 2010 de Marina, quando ele teve 19% dos votos. Quanto à campanha, há uma questão interessante: Marina já não é mais a surpresa que foi em 2010. Os dois adversários dela, principalmente o Aécio, vão enfrentá-la de igual para a igual. Algo que não aconteceu em 2010, quando Serra não tinha na Marina como principal adversária. Naquela oportunidade, o alvo do PSDB era Dilma.
Em relação a temas polêmicos e divergentes, vai prevalecer qual discurso na campanha, o de Campos ou de Marina?
Tenho certeza que será um híbrido. É possível constatar isso com dois exemplos: em relação aos palanques estaduais, a posição declarada da chapa é manter tudo como está. Ela disse que vai se "preservar" e não estará em alguns palanques. A nova composição não alterou o que havia sido combinado previamente. E em relação a isso, é importante dizer que conciliar a campanha nacional com os palanques estaduais é um problema também dos dois adversários dela. O outro exemplo é a questão do agronegócio. A Marina vai fazer um esforço - e isso não é só em relação ao setor mas em relação à massa do eleitorado de tirar de si a pecha de um candidata meramente ambientalista. Ela precisa fazer isso para se colocar como uma candidata viável também para setores do eleitorado que não vota nela. Ela vai tentar fazer uma conexão entre o agronegócio e a sustentabilidade. Um discurso da produção com ganho de produtividade, de um uso mais racional dos insumos para a produção.
O PSB é apenas a oitava bancada em número de deputados federais e de senadores. O eleitorado pode desconfiar de que um eventual mandato de Marina terá sérios problemas de governabilidade?
Esta é uma grande questão, que desafia a intuição do eleitor. Qual é o limite da proposta de uma nova política? Para marcar posição, o próprio Eduardo Campos já dizia que o senador José Sarney e outras figuras emblemáticas da velha política não teriam lugar no governo dele. Mas é muito difícil que um presidente consiga governar com alguma tranquilidade se não tiver uma coalizão minimamente estabelecida no Congresso. Não creio que será um aspecto muito debatido ao longo da campanha. Justamente porque é uma questão maldita na classe política. À presidente Dilma não interessa colocar esta questão em pauta. Nem ao Aécio. É uma questão que remete à política como ela é e isso não é interessante no centro do debate.
A nova chapa mantém as características heterogêneas, quando não contraditórias, da chapa anterior. Porque o PSB e o grupo da Marina não enxergam isso como um problema?
Vivemos numa democracia multipartidária, com coligações que abrigam muitas siglas. Ao mesmo tempo, a campanha exige uma unidade. E à medida que o candidato vai se posicionando como um possível vencedor das eleições, esta unidade pode começar a sofrer fraturas. Os partidos agregados começam a querer faturar em cima do apoio. Creio que neste momento da campanha, a unidade se constrói na oposição aos outros candidatos.
Com a coordenação de campanha da candidata do PSB irá lidar com a provável ausência de Marina em palanques estaduais importantes, como São Paulo, Minas Gerais e Paraná?
Acho que Marina vai adotar uma estratégia de campanha individualizada, fazendo apenas a campanha dela, com ajudas de entidades independentes da sociedade civil. É a saída para fazer uma agenda nestes estados. É claro que isso é ruim porque é caro e difícil de fazer. Mas ela tem uma boa votação no Sudeste, com 22% de intenções de voto. E também está bem nas grandes cidades.
Nem Dilma, nem Aécio perderam intenções de voto na primeira pesquisa com Marina. Em contrapartida, houve uma queda acentuada no número de indecisos e de quem dizia que votaria nulo. A candidatura de Marina era, portanto, aguardada pelo eleitorado? Qual é o perfil do eleitor da Marina nesta fase da campanha?
Nas manifestações de junho do ano passado, ela é uma das únicas figuras políticas que saiu ilesa dos protestos, mesmo com toda a classe política condenada nas ruas. A Marina tem mais potencial neste tipo de eleitor que se manifestou no ano passado: um eleitor jovem, entre 20 e 35 anos, e com mais escolaridade. Acho que ela consegue canalizar este tipo de sentimento da antipolítica. Há uma afinidade entre este setor da sociedade e o grupo político que está apoiando Marina. Mas a campanha é curta e a tendência é haver um segundo turno. E, até lá, a disputa entre Marina e Aécio será o ponto central da disputa do primeiro turno. A tendência é que o quadro seja de indefinição até o 5 de outubro.


