Nenhuma retirada é feita sem autorização por escrito de um responsável
Em casos de urgência a procura é feita no Brasil inteiro




No mês passado, chamou a atenção a notícia de que a família de um jovem de 22 anos, vítima de homicídio em Londrina, autorizou a doação múltipla de órgãos. Um gesto nobre, infelizmente realizado com uma frequência menor do que a necessária. Ainda assim, levantamento feito pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), registrou no ano passado um aumento de 26% em relação a 2008. Foram 1.658, ou 8,7 doadores por milhão da população (ppm).

O problema, na avaliação do diretor da Central de Transplantes de Londrina Altair Mocelin, é que ainda falta conscientização da população e infraestrutura e equipes médicas organizadas nas cidades. ''Hoje, para tirar um fígado, o pessoal vem de Curitiba. Por via aérea, só temos o avião do governo. Somos ágeis o suficiente frente ao tamanho do Estado e as condições técnicas que nós temos'', afirma.

A doação de órgãos cresceu 26% em 2009 em relação ao ano anterior. A que o senhor atribui esse crescimento?
A campanhas que vêm acontecendo. As Centrais de Transplante no Estado têm como missão divulgar isso nas escolas para as crianças, que irão conversar com os familiares em casa. Nos hospitais as coisas melhoraram no sentido de que há nos maiores, que têm UTI, uma missão interna designando alguém que se preocupe com a procura de possíveis doadores.

Se continuarmos nesse ritmo de crescimento, quando vamos atingir o nível ideal?
Pensando só na morte encefálica, que é o doador de múltiplos orgãos, neste ano de 2010 serão esperadas para Londrina e região mais de cem pessoas mortas podendo ser candidatos a doador ideal. E nós somos 1,8 milhão de pessoas, desde Jacarezinho até Apucarana e Ivaiporã. No ano passado, só nove foram doadores. Para alguns a família não consentiu porque a pessoa que faleceu nunca conversou com eles que se acontecesse alguma coisa queria ser doador. Sempre temos que pedir para as famílias, não há nenhuma retirada sem autorização por escrito de algum responsável.

Outras pessoas têm motivações para a não doação e veja que não adianta forçar nada. Já houve uma lei anos atrás obrigando quem não dissesse que não queria ser doador a doar automaticamente. Esta lei teve que ser revogada porque houve uma gritaria no país inteiro.

E como é o critério de distribuição de órgãos hoje?
As informações de um doente que esteja aqui em Londrina são fornecidas para uma central em Curitiba. Lá o computador tem informações sobre todos os doentes do Paraná. Se é uma córnea, é o próximo da fila. Para o rim, depende muito de compatibilidade em outros sistemas que fazem parte da nossa formação.

Existem órgãos, como fígado e medula óssea, em que se prioriza os casos mais graves.
Isso sempre existe. Casos que são urgentes se passa a procurar no Brasil inteiro. Mas as urgências são de pequeno número.

Esses critérios são os ideais?
Isso é universal, nós não inventamos isso. Vem acontecendo desde 1960, já são 50 anos, no mundo inteiro, com gente muito mais ativa do que nós. Isso não privilegia ninguém, todo mundo passa a ser igual na hora de receber um órgão, exceto os que estão em urgência.

O senhor acha que existe legislação demais em relação a esse assunto?
Eu acho que há certas coisas que prejudicam. Por exemplo, hoje um hospital que está trabalhando corretamente tem que a cada dois anos refazer toda a papelada para dizer que está tudo certo. Mas ele está fazendo transplante, está tendo bons resultados. Em vez de punir quem está trabalhando mal, pune-se todo mundo. Por que vou ficar prestando atenção no vencimento de um papel daqui a dois anos para continuar transplantando? Não vou.

Em Londrina, os transplantadores de córnea ficaram todos sem poder transplantar em janeiro porque venceu o período de dois anos e a papelada não foi refeita a tempo. O hospital vai ter que ficar vigiando o que vai vencer amanhã? Estou pleiteando, em instâncias maiores, que isso seja refeito. Quem está trabalhando bem vai ser punido. E mais punido ainda é o doente.

E a doação entre vivos é comum?
É maior do que de doador falecido. Ainda é maior o número entre parentes porque esses estão disponíveis, as famílias são em grande número ainda, muitos irmãos. Qual é o filho que não quer doar para um pai ou uma mãe, todos eles querem doar, apesar de que há riscos nessa doação. Imagine que eu tenha uma doença hereditária. Eu desencorajo doação de filho para pai ou mãe. Mas certas famílias não querem nem saber. Mas também para o doador vivo há outro risco. Todo vez que um de nós vai se submeter a uma cirurgia com anestesia geral, eu tenho, só com esse procedimento, uma chance de morte em cada três mil anestesias gerais.

Qual é a nossa maior demanda?
Tem um estoque de córnea e de rim. Quem veio à procura de córnea em outubro de 2009 em dezembro já estava transplantado. Quem faz diálise tem uma grande chance de estar vivo após um ano, o que não acontece com quem precisa de um fígado ou coração.

Falando em infraestrutura, o principal motivo para esse entrave nas doações são os familiares ou é justamente o preparo da equipe de captação?
As duas coisas. Nós ainda temos famílias que se negam, temos muitas coisas ainda a serem conquistadas na população. Nos hospitais o que precisa ser conquistado é o reconhecimento imediato. O cérebro foi embora, que isso seja documentado hoje, mesmo que seja meia-noite, não pode deixar para para a manhã seguinte. Falta agilidade nas UTIs, ainda. Podemos melhorar. E estamos trabalhando nesse sentido, para dizer para os plantonistas que é para hoje, que não pode ficar para amanhã. Uma vez que o sistema nervoso central é destruído, o comando da função dos outros órgãos também não existe mais. O coração vai parar em até 48 horas. Parou, acabou a doação de coração e de alguns outros órgãos.

Falta treinamento ou falta boa vontade?
Falta envolvimento. Quem faz esse trabalho reconhece o diagnóstico. O que precisa é conquistar os familiares para o lado da doação. Uma vez declarado morto, tem uma série de testes que precisam ser feitos e que não são pedidos antes. Se não for agilizado, vai atrasando.

A captação em si é rápida? Os médicos já estão preparados?
É rápida, mas precisa mobilizar equipes. Hoje, para tirar um fígado, a equipe precisa vir de Curitiba. Por via aérea, só temos o avião do governo. Recentemente, dos dois aviões, um tinha algum problema técnico e outro estava ocupado. O pessoal veio de carro. Só no trânsito gastou cinco horas e para tirar mais duas, três. E só aí levar para Curitiba. Somos ágeis frente ao tamanho do Estado e as condições técnicas que nós temos.

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