Correspondência por jornal
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de junho de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Antigamente, me disseram, os grandes intelectuais brasileiros mantinham elevadíssimas correspondências, cartas que eram brilhantes peças literárias de conformidade com a alta capacidade de quem as escrevia. Parece que hoje as cartas vão ficando em desuso para todas as pessoas, sendo substituídas pelo telefone, pelo fax ou, então, simplesmente não são escritas por preguiça ou falta de tempo. É possível também que isso ocorra porque já não se fazem escritores como antigamente, enquanto que o comum dos mortais prefere falar a escrever porque a linguagem escrita sempre foi um obstáculo quase intransponível para a grande maioria.
Entretanto, se as cartas vão se tornando raridade, às vezes é possível manter uma espécie de correspondência pelos jornais, o que não deixa de ser uma forma de diálogo. Isto aparece sobretudo através das cartas dos leitores, dos críticos de arte e literatura e das farpas que os intelectuais costumam trocar entre si. E se essa forma de comunicação passa longe do virtuosismo dos grandes escritores, pelo menos se constitui numa tentativa de romper o isolamento, de conquistar alguma afirmação, o que proclama a maneira de ser do gênero humano e desnuda suas fraquezas ou suas virtudes, sua mediocridade ou seu brilhantismo, seu vazio ou sua esporádica plenitude.
Mas por que será que pessoas escrevem, mantendo estas correspondências jornalísticas? Bem, para responder a isso, só recorrendo mais uma vez ao grande jornalista e escritor H.L. Mencken, que foi um verdadeiro mestre da palavra, pois o que ele afirmou, referindo-se a escritores, pode também servir para os que têm mania de escrever. Depois de considerar toda a dificuldade dessa arte, Mencken pergunta: Por que, então, homens e mulheres racionais sujeitam-se a uma vocação tão bárbara e exaustiva? Em seguida, ele mesmo responde: Uma das razões, acredito, é a de que o escritor, como qualquer outro suposto artista, é alguém em que a vaidade normal dos outros homens é tão vastamente exagerada que ele não consegue retraí-la. Seu impulso arrebatador é o de rodopiar sobre seus semelhantes, batendo as asas e emitindo gritos de desafio. Como isto é proibido pela polícia de todos os países civilizados, ele se conforma em pôr esses gritos no papel. É o que se chama de auto-expressão.
De minha parte, tento escrever para manter uma correspondência por jornal. Um diálogo que muitas vezes pode ser um monólogo como, por exemplo, o que farei nesse artigo referindo-me a Arnaldo Jabor, pois duvido muito que ele tome conhecimento das palavras aqui semeadas.
Desde que Jabor apareceu na Globo fiquei cativada por sua inteligência e seu estilo. Aí está um sujeito realmente brilhante, pensei, portanto raro neste país de tantos intelectuais postiços. Passei depois a lê-lo, encantada com a maneira original com que trata os temas e com sua arte de transformar fatos políticos em peças literárias, sem com isso abrir mão de uma bem estruturada e ferina crítica.
Não que ele substituísse para mim Paulo Francis, um dos mais brilhantes jornalistas de nossa história, que por falar certas verdades foi detestado por alguns que não o aceitaram, pelos que não o entenderam, ou pela parcela de invejosos que gostariam de ter sua inteligência ou de estar em seu lugar em Nova York. Paulo Francis é insubstituível.
Mas Jabor é alguma coisa que se sobrepõe à mediocridade generalizada, e que com seu falar e escrever corajosos lança chispas nas lacunas de escuridão deixadas pelos literati. Seu último artigo, Não podemos atacar hipopótamos com rosas, estava um primor de idéias e imagens, um desabafo cheio das rudezas de quem se sente livre para falar o que quiser, porque é alguém que se tornou globalmente poderoso, privilégio raro de um clube fechado de ungidos da mídia.
Eu tenho a força! Parece que Jabor, o superjornalista, sempre emite este grito antes de se manifestar pela fala ou pela escrita. E este grito ecoou como pano de fundo de suas entrevistas à Folha de Londrina, dia 25 deste. Ali conheci não o intelectual Jabor, mas o indivíduo Jabor. É um indivíduo que se ama intensamente, que se sente bastante seguro do seu sucesso, e está feliz da vida com suas conquistas. Sobretudo, ele é o que definiu com precisão o jornalista Antônio Mariano Júnior, que o entrevistou: um deslumbrado Jabor. Por tudo isso, nele se encaixa com perfeição a descrição de Mencken, pois tudo indica que seu impulso arrebatador é o de rodopiar sobre seus semelhantes, batendo as asas e emitindo gritos de desafio.
Na entrevista aparece também o Jabor cineasta, porque ninguém é perfeito. E fico a me indagar por que alguns brasileiros insistem em fazer cinema. Nosso cinema é horrível. Nunca se fez nada que prestasse, e se houve através desses arremedos de arte cinematográfica a tentativa de expressar nossa realidade, esta é apenas um sujo tonel repleto de violência e baixarias de toda espécie.
Em relação a Jabor, o que escrevi é um monólogo. Mas pode ser um diálogo com os leitores deste jornal. É assim que geralmente se processa a correspondência hoje em dia.


