CORRENDO RISCO - Esporte demais pode fazer mal
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 08 de fevereiro de 2008
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
Na era do culto ao corpo e da ditadura da magreza, é praticamente impossível não ser cobrado pela falta de prática de exercícios físicos, seja pelo cardiologista ou por alguém da família. Que fazer esportes é saudável, ninguém duvida. Mas a falta de acompanhamento médico ou o exagero em busca do corpo perfeito pode ter efeito contrário, causando sérios prejuízos à saúde do atleta iniciante ou mesmo daquele esportista de final de semana.
O alerta é do ortopedista Arnaldo José Hernandez, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva (SBME), que em entrevista à FOLHA falou dos riscos da prática esportiva, dando dicas de como fazer uma atividade saudável sem sobrecarregar o corpo.
Em que ponto o esporte deixa de ser uma prática saudável para se tornar um risco?
Um exemplo é quando a pessoa tem um problema de saúde mais grave como hipertensão, diabetes, que não é bem acompanhado, e ainda assim vai além do que pode. Isso independe de ser em esportes competitivos. Pode ser até na atividade da academia. Quanto à população em geral, que não tem problemas mais sérios de saúde, o indicado é fazer cinco vezes por semana uma atividade física, três vezes com atividade aeróbica de moderada intensidade - corrida leve, natação, pedelar - e mais duas sessões de exercício de força - musculação, circuito - durante meia hora. Isso já é suficiente para a saúde, desde que cuide da alimentação, com uma dieta adequada. Fazer mais do que isso não acrescenta benefícios significativos. A partir do momento que há sobrecarga metabólica e mecânica, pode extrapolar a capacidade de resistência da sua estrutura. Começa a aparecer tendinite, fratura por stress, lesão na cartilagem e o chamado ''overtraining'', excesso de treino que faz com que a pessoa comece a perder rendimento, sono, apetite, ficar irritada.
O chamado ''esportista de final de semana'' é o principal grupo de risco?
Se você treina dois dias e pára cinco, perde tudo que conseguiu de benefício com a atividade durante a semana. Chega no outro final de semana na mesma condição que começou, ou seja, sem preparo nenhum. O esporte de final de semana serve basicamente como algo recreacional, de lazer. Além de não dar resultado, pode aumentar alguns fatores de risco. Quanto menos preparado você estiver, maior a chance de ter lesões.
Qual a parte do corpo costuma ser a mais afetada?
Como o esporte da maioria é o futebol, o mais comum é ter problemas no tornozelo, joelho, lesões musculares e tendinosas. Por isso, o ideal é fazer, além do esporte de final de semana, pelo menos mais dois dias de preparação para esta atividade.
E quais são os riscos clínicos?
O esportista de final de semana geralmente é de uma faixa etária mais velha, está trabalhando e não tem tanta disponibilidade de horário para fazer atividade física, além de não fazer uma dieta adequada e estar acima do peso ideal. Se ainda tiver colesterol alto, ser hipertenso e não saber, aumenta o risco de morte cardíaca por insuficiência coronariana. É o camarada que vai jogar bola e infarta no meio do jogo. Isso é relativamente comum.
No caso das lesões musculares, o diagnóstico está sendo cada vez mais rápido?
Com o recurso da ressonância magnética, melhorou muito a qualidade de diagnóstico desses problemas. Mas o ponto principal não é o diagnóstico, é o tratamento, a recuperação das lesões e a liberação para retomar as atividades. Isso ainda tem que ser muito cuidadoso. O tratamento ainda é lento porque depende basicamente dos mecanismos naturais de reparação dos tecidos, e isso não tem muito como interferir e acelerar, porque faz parte da natureza da pessoa.
O senhor acredita que os atletas, nessa busca por recordes, estão sendo forçados a ultrapassar seus limites?
Com certeza. O esporte de alta performance é bonito de se ver, tem uma visibilidade muito grande, traz retorno de mídia. E o atleta, ou pela vaidade, interesse financeiro ou pelo prazer pelo esporte, vai além dos seus limites. A pessoa que está imbuída do espírito de competitividade perde o espírito racional. Em uma pesquisa com atletas de nível olímpico foi feita a seguinte pergunta: Se existisse uma substância que conseguisse fazê-lo chegar a um recorde mundial, mas dali cinco anos poderia levar à morte, você tomaria mesmo assim? Mais de metade dos atletas responderam que sim. Essa resposta comportamental é uma somatória de estímulos, da pressão que a sociedade, família, técnicos, clube fazem em cima do atleta. Às vezes até ele mesmo se pressiona. Quando o esporte chega nesse ponto, deixa de ser saúde e passa a ser um problema.


