Correndo forte em 98
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de fevereiro de 1997
Gaudêncio Torquato 
Há muita água a correr por baixo da ponte até o segundo semestre de 98. Portanto, acautelem-se aqueles que vêem na possibilidade da recandidatura o passaporte para um segundo mandato, caso a emenda da reeleição passe, sem traumas, pelo segundo turno na Câmara e nos dois turnos no Senado. Ninguém, a esta altura, está seguro de sua situação. Alguns, é claro, despontam como favoritos, como o próprio presidente Fernando Henrique. Outros, principalmente governadores, começam a se destacar pelo fato de estarem controlando rigidamente o Orçamento de seus Estados, pagando em dia o funcionalismo e iniciando um programa de obras prioritárias. Terão grandes chances de continuar nos governos.
O importante, nos próximos meses, é preservar boas condições de governabilidade. A começar pela manutenção de programas de austeridade, que permitam gerar recursos para ações e obras consideradas de alta relevância para os Estados e municípios. Não há modelos mais apropriados que outros, pois as características e circunstâncias regionais e locais citam as prioridades. Há, isso sim, a norma do bom senso que indica ações em campos variados, com destaque para o campo social, em função das grandes demandas apontadas pelo povo nas áreas de educação, saúde, habitação, segurança, transportes e melhoria geral do serviços públicos. Há que se estar atento para os olhares da população, que nunca estiveram tão acesos em direção aos governantes.
O administrador deve estar consciente sobre a conveniência de passar para sua comunidade conceitos de eficiência, operacionalidade, agilidade e proximidade. Esta última qualidade, aliás, foi bem ressaltada pelo voto nas últimas eleições. A pior coisa que pode ocorrer a um governante, em qualquer instância política, é constatar que, no meio ou no final da gestão, não conseguiu transmitir à população um conceito sobre seu governo. E a coisa se complica quando fatos negativos - rumores, escândalos, casos mal explicados, ineficiência da máquina, apadrinhamentos, nepotismo - canibalizam os feitos do governador ou do prefeito, fragilizando sua identidade. O melhor marketing apenas atenuará os efeitos devastadores da ausência de imagens pouco claras e consolidadas.
E é por isso que não se pode garantir que alguém, mesmo comandando uma estrutura administrativa, consiga obter sucesso na conquista de um novo mandato para o mesmo cargo. Casos negativos na administração tendem a ser mais importantes que casos positivos, prendendo os governantes no cipoal da má fama. Basta olhar para o caso de Estados que estão praticamente falidos, com salários de funcionários em atraso, folhas exorbitantes, obras paralisadas, corpos funcionais desmotivados, como Alagoas, por exemplo. Por isso, seu governador já anunciou que não é candidato à reeleição. Em outros Estados, como o Maranhão, onde a governadora Roseana tem sido uma agradável surpresa, pela forma como vem controlando as finanças estaduais e realizando parcerias, os chefes de Executivo buscarão com galhardia o passaporte do segundo mandato.
Outro eixo a ser trabalhado com dedicação é o setor político. Teremos, em breve, uma reacomodação nos quadros partidários, fruto dos novos pólos de poder formados a partir da aprovação da emenda da reeleição. O novo desenho acentuará adensamento e fragilização de partidos, ensejando recomposições de grupos nos Estados e municípios. Significa que os tempos próximos convidam políticos e governantes para a intensificação de conversas e contatos. É hora de ir a campo, trocar figurinhas, correr as ruas, ouvir a voz das multidões, fiscalizar, sugerir, debater e procurar juntar forças. Para correr denso por baixo da ponte, no final de 98, o rio há que receber águas de muitos afluentes, tornando quase inevitável sua forte chegada ao mar. Assim é a política.


