Corporação anticorporativa
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de março de 1997
Rubem Azevedo Lima 
O líder do PFL na Câmara, deputado Inocêncio de Oliveira, revelou diante das câmeras de televisão o que talvez seja o maior motivo pelo qual seu partido quer privatizar a Petrobrás: acabar com o corporativismo dos petroleiros e demais servidores dessa estatal. Esse, no entanto, é motivo que vale para os empregados da Petrobrás e para os de outras empresas ou de qualquer setor de atividade humana.
Alguém conhece uma comunidade em que as pessoas façam trabalho conjunto e continuado, na qual não haja sentimento corporativo, mais ou menos forte? Se o líder do PFL procurar bem, de lanterna em punho, provavelmente não achará exceção a tal regra. E acabará como Diógenes, cansado, dentro de uma barrica, sem encontrar o que buscava.
Por sinal, o líder pertence a uma das corporações mais poderosas do País, a dos médicos, na qual muitos destes profissionais sequer trabalham no serviço público. Por se tratar de seres humanos, eles também estão sujeitos a erros individuais ou em grupo. Quando isso acontece, como é natural, recorrem ao apoio de sua corporação, ou são levados a ela, para justificar-se. A corporação pode reagir corporativamente, mas o normal é que julgue o colega ou o grupo de colegas com isenção, para valorizar o exercício correto da profissão e preservar a imagem corporativa.
Outra corporação fortíssima é a das Forças Armadas. No passado, seus integrantes, como os de outras corporações, não lutavam apenas na defesa de seus direitos, mas também na de privilégios. Tais abusos tornaram-se cada vez mais raros, embora os militares, como os petroleiros, os médicos ou qualquer outra categoria profissional procurem preservar, em suas corporações, os direitos legítimos que conquistaram ao longo do tempo. E não tem de ser assim mesmo?
Será que o líder do PFL pensa em eliminar, de vez, tais sentimentos, a começar pela eliminação da Petrobrás? Nesse caso, irá ele propor o fim das associações médicas, da OAB, das federações de trabalhadores e empresários? A privatização das Forças Armadas ou sua extinção, como querem o Diálogo Interamericano e a Trilateral?
Os erros da paixão anticorporativa são tão condenáveis quanto os das corporações, quando atravessam os limites da legitimidade.
O Senado e a Câmara, que também cometem erros e abusos, não são, por acaso, verdadeiras corporações? E vamos eliminá-los por isso? Mesmo que o sentimento parlamentar corporativo, mas, no fundo, anticorporativo - para vender uma empresa estatal, que grandes serviços faz ao País - ponha, entre os que vão decidir tal matéria, até representante eleito com apoio financeiro de empresas internacionais de petróleo, competidoras da Petrobrás? Tais empresas têm suas próprias corporações, muito mais perigosas, para o Brasil, do que a dos petroleiros, alcançáveis pela legislação brasileira e puníveis pelo governo, a qualquer tempo.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília. Ruy Fabiano, que escreve regularmente neste espaço, está de licença.


