‘‘O homem com carinho / curvou a rude mão / Da uva faz o vinho, / do trigo faz o pão’’ (D.Marcos Barbosa)
A comemoração litúrgica da festa do Corpo de Deus (‘‘Corpus Christi’’) remonta à Idade Média e surgiu como um momento de afirmação explícita da fé católica na presença do Senhor Jesus nos sinais sacramentais, em oposição a interpretações reducionistas condenadas pelos sucessivos concílios. A partir do Concílio de Trento, dentro da perspectiva da Contra-Reforma, a festa de Corpus Christi reveste-se da pompa e do triunfalismo próprios de uma Igreja em luta para manter seu poder e sua influência. Desta forma, o caráter litúrgico-catequético da celebração foi se esvaziando, tornando-se a festa uma ocasião para que a igreja afirmasse seu poder e imponência. A partir do Concílio Vaticano II, no entanto, o conceito teológico de Igreja como Povo de Deus toma corpo, exigindo uma revisão de suas atitudes diante do mundo de hoje. Essa revisão já havia começado antes do próprio Concílio através dos movimentos bíblico e litúrgico que, tomando como princípio uma ‘‘volta às fontes’’, buscava arejar a vida eclesial, preparando o ‘‘aggiornamento’’ de João XXIII com sua exortação a que se ‘‘abrissem as janelas para fora’’.
Celebrar o corpo de Deus, o sacramento da Eucaristia, hoje, é celebrar o centro mesmo de toda fé cristã. O mistério da Eucaristia é o traço de união entre a Encarnação e a Ressurreição, entre o verbo que se faz carne e o Cristo Ressuscitado. A Eucaristia expõe a dialética fundamental do cristianismo: a religião do Deus Vivo, transcendente e imanente, Alfa, Ômega, princípio e fim e, ao mesmo tempo, o Deus Próximo, ‘‘Pão de Deus que desceu do céu e dá vida ao mundo’’ (Jo 6,33), que promete ‘‘eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo’’ (Mt 28,20). Mas, assim como a Encarnação fala de Deus que se faz homem e a Ressurreição fala do homem que vence a morte, a Eucaristia fala do homem, de seu corpo e sua vida. O pão se transforma em Corpo e Vinho se torna sangue - o fruto do trabalho do homem, da sua ação transformadora sobre a natureza, torna-se Corpo e Sangue de Cristo. A partir da Eucaristia, a realidade cotidiana do homem torna-se sagrada. Ou melhor, a distinção entre sagrado e profano deixa de existir: toda a realidade torna-se santa, a partir de então.
Se a realidade é santa, o homem, cada homem, e seu trabalho, são igualmente santos. A santidade não é uma qualidade acrescida ao humano, mas lhe é interior. Consequentemente, não pode haver comemoração do Corpo de Deus, do mistério eucarístico, se não houver respeito absoluto pela santidade do homem, trabalho e sua vida. Como celebrar dignamente a Eucaristia num mundo em que as relações sociais, baseadas na apropriação privada dos meios de produção, impedem que o desenvolvimento das forças produtivas beneficie o conjunto da humanidade, ao contrário provocando exclusão e miséria para um número crescente de seres humanos? O respeito ao Corpo de Deus inexiste onde há desrespeito ao corpo do homem. Se, na perspectiva do Mistério da Eucaristia, tudo é santo, os mecanismos produtores de miséria, marginalização, exclusão e sofrimento, são manifestação das forças demoníacas que tentam retardar o advento do Reino de Deus ou, no dizer de Teillhard de Chardin, são as ‘‘passividades’’ que amarram o avançar da Humanidade rumo ao Ômega.
A celebração da Eucaristia é a celebração da solidariedade. Eucaristia significa ‘‘render graças, agradecer’’. Dar graças pela unidade, porque somos ‘‘companheiros’’ (cum + panis: aqueles que repartem o pão). Nada mais contrário à Eucaristia que a exclusão e a marginalização. Ela é a celebração da unidade, como nos lembra o texto da Didaquê (século II): ‘‘Como este pão partido estava antes disperso pelos montes e, recolhido, se tornou uno, assim se congregue Tua Igreja de todos os confins da terra em Teu Reino’’. Neste mundo de veleidades neoliberais, onde o mercado é elevado à condição de supremo critério e a sobrevivência dos mais fortes é encarada como fato natural, mundo no qual o individualismo faz do eu o seu centro, celebrar o Corpo de Deus é afirmar a predominância da solidariedade sobre a competição, da inclusão sobre a exclusão, da fraternidade sobre o egocentrismo, do amor sobre o mercado. Como ensina o admirável Padre da Igreja do século IV, São João Crisóstomo: ‘‘Desejas honrar o Corpo de Cristo? Não o desprezes quando vires em trapos (...) Mais uma vez digo, o que Deus quer não são cálices de ouro mas almas de ouro’’.

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