Ao som do berimbau, do pandeiro e do atabaque, o menino assumidamente tímido se transforma. Faz piruetas, realiza movimentos complicados e abusa da ginga, esforço decorado com um sorriso no rosto permanente. Antonildes dos Santos Caetano, 15 anos, há seis meses é um dos frequentadores das aulas de capoeira no colégio Atanázio Leonel, no conjunto São Jorge, onde mora.
O bairro é uma das regiões mais pobres da cidade. Não tem asfalto ou rede de esgoto. A energia elétrica é um luxo recente e a violência assusta os moradores: tráfico de drogas, assaltos, homicídios (três em 2002, até a primeira semana de dezembro). Neste cenário, Antonildes encontra na capoeira uma forma de tornar a realidade melhor para si mesmo e para sua família.
''A capoeira me ajuda. Melhorou o meu corpo e eu achei a abordagem muito diferente. Achava que era algo mais físico, uma luta, e as aulas servem mais para educar. Os movimentos são lentos, enquanto nas outras academias, o pessoal chega batendo'', diz o adolescente. A mãe de Antonildes, Aparecida Irene, faz coro. ''Já vi umas aulas e não tem nada de agressivo. A criança que entra lá tem o que fazer. Aqui no São Jorge, às vezes vejo menino de sete anos fumando, bebendo. E esses às vezes nem chegam a virar adolescente'', diz Aparecida, dona de casa.
Exatamente por isso, a mãe estimula que todos os quatro irmãos de Antonildes entrem na capoeira. ''Eles ficam num lugar bom, aprendendo alguma coisa. Desde os sete anos, o Antonildes não sabe o que é ficar à tarde sem alguma atividade. Isso vai fazer com que ele nunca caia no caminho errado'', afirma dona Aparecida. Antonildes adora estar na capoeira, mas, ao contrário de muitos de seus colegas, não almeja se tornar mestre ou se profissionalizar na área.
Mas no Berimbau da Cidadania ele já esboça uma vocação o jovem se mostra entusiasmado com o projeto de vídeo das aulas de capoeira. ''Há quatro meses, estou ajudando a filmar e editar as imagens de capoeiristas nos pontos da Rede (da Cidadania). É muito bom. Gostaria de trabalhar com televisão um dia'', planeja. Nesse projeto, Antonildes conheceu bairros da cidade onde nunca havia pisado Guaravera, Cafezal, União da Vitória.
E, para ele, não falta atividade. Comparece a aulas de arte gráfica na Escola Profissional e Social do Menor em Londrina (Epesmel), e recentemente passou num concurso para estagiário na prefeitura. Para os próximos dois anos, a família planeja economizar dinheiro para que Antonildes tenha uma boa preparação para o vestibular.
Seu serviço na prefeitura ajudaria o único sustento da casa vem do salário do padrasto, que ganha 300 reais por mês trabalhando numa firma de confecção de sacos. ''Há até um mês atrás, eu trabalhava de doméstica. Mas tenho que ficar em casa porque um dos meus filhos pequenos, Anderson, 4 anos, tem problemas de saúde, toma gardenal, às vezes tem convulsões'', explica dona Aparecida.
A família mora no São Jorge há cinco anos, numa casa com dois cômodos grandes um deles congrega a cama e os quartos de todos os membros da família, e outro compreende a sala e a cozinha. Quando chegaram ao bairro, não havia água encanada nem energia elétrica. ''O chão era só barro. Carpi tudo pessoalmente'', conta dona Aparecida. Se a situação hoje está melhor, a família de Antonildes deseja mais e a capoeira só ajuda nesse caminho. ''É algo que eu gosto. Alguma coisa mudou desde que comecei a praticar'', diz.

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