Cornucópia transgênica - Rodrigo W. Apolloni
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de março de 1999
Rodrigo W. Apolloni 
Onde você estava quando conheceu Dolly, a primeira ovelha clonada da história? Provavelmente em casa, diante da tevê, depois do jantar, imaginando até onde o gênio humano é capaz de chegar. Se foi mais ou menos assim, você é um indivíduo que, graças à abordagem superficial da mídia, pensa que a engenharia genética ainda está restrita aos olhos mansos de uma única ovelha e a longínquas ilhas de ciência na Europa ou nos Estados Unidos. Pois bem: é absolutamente provável que, algumas horas depois de ver o jornal, seu aparelho digestivo já tivesse processado uma generosa porção do que existe de mais moderno em termos de manipulação genética.
Você pergunta onde: no prato de sopa, no feijão com arroz, no inocente pão com mel ou no ascético pote de iogurte natural? Exatamente. Muito antes de Dolly - desde a década de 80 - graças à tecnologia do DNA recombinante, a ciência vem dando nós no código genético de vegetais como a soja, o algodão, o tomate e o milho.
E não se trata apenas de clonar, mas de alterar a cadeia de genes e mudar o produto. Inserir, por exemplo, um gene animal em um vegetal para aumentar seu poder de nutrição ou, então, modificar um segmento da cadeia de DNA de uma espécie de algodão para que ela nasça com seus capuchos azuis e, assim, dispense a tintura na hora de fabricar o brim do jeans.
A possibilidade continua distante, certo? Errado: na última safra de soja dos EUA, mais da metade da área foi plantada com uma variedade transgênica resistente ao herbicida Roundup, ambos produzidos pela Monsanto, gigante da área de biotecnologia que há pouco tempo encampou nossa maior empresa da área, a Agroceres, e que em outubro do ano passado obteve uma licença da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para cultivar e comercializar soja transgênica no País. Na Argentina, em 98, no segundo ano de plantio, ááa soja modificada representou 12% da produção anual de 14 milhões de toneladas.
Em princípio, a chegada dos transgênicos é auspiciosa porque garante, em um prazo menor do que se supunha, o fim da fome no mundo. Afinal, não é todo o dia que se consegue colher um tomate que dure 5 vezes mais que os plantados no quintal de casa.
Quanto a isso, aparentemente não há dúvida: até prova em contrário, a manipulação genética se mostra um caminho fantástico para garantir alimentos mais baratos, nutritivos e em quantidade para a população. Os primeiros números indicam isso: segundo estimativas, a nova tecnologia pode reduzir o consumo de herbicidas nas lavouras em pelo menos 20%, com uma economia média de 50% nos custos do agricultor.
Mas os reflexos para o mercado não param por aí. Virtuais compradores de produtos agrícolas brasileiros, como a França, a Austrália e a Grécia podem ser afugentados por uma política nacional mais liberal em relação ao tema. Nesses países, o tema é visto com restrições e as exigências vão da pura e simples não-aquisição do produto à sua aceitação desde que devidamente rotulado como transgênico.
A popularização dos transgênicos também está criando polêmica que envolve outros elementos quentes como ecologia, saúde pública, ética científica e até um dos princípios básicos do direito moderno, a liberdade individual.
Para muitos cientistas, o grau de conhecimento adquirido sobre manipulação genética ainda é muito pequeno para garantir a segurança de sua liberação em escala comercial. Eles se baseiam em fatos da própria pesquisa: a mutação que criou a soja transgênica foi produzida sobre o gigantesco universo de 20 genes conhecidos da soja natural, o equivalente a menos de 0,002% do total de genes que compõem o genoma da espécie.
A pergunta é óbvia: qual o reflexo desta mutação radical sobre os demais 99,998% dos genes da soja ainda não pesquisados? Ainda não é possível responder, apesar de os defensores da liberação dos transgênicos garantirem que não há riscos para a saúde dos consumidores ou para o meio ambiente.
Os contrários à liberação contestam: é o caso do agrônomo e professor Sebastião Pinheiro, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que aponta um acidente em 1989 no Japão, quando 37 pessoas teriam morrido em consequência de manipulação genética em escala industrial. Uma empresa alterou geneticamente uma bactéria para que ela incrementasse sua produção de Triptofano, um suplemento alimentar. A bactéria passou a produzir uma substância altamente tóxica, que só foi descoberta quando o produto já estava no mercado.
Da mesma forma, ainda não há certeza sobre a possibilidade de cruzamento entre espécies modificadas e naturais. Basta imaginar o que aconteceria se um fungo de uso industrial, modificado para crescer numa velocidade 20 vezes maior que a normal, cruzasse com um fungo causador de micose em seres humanos. A polêmica mais grave não mora, porém, nos efeitos ambientais ou econômicos dos transgênicos. Ela se refere ao direito de escolha de cada indivíduo.
Voltemos ao caso Dolly: se você soubesse que estava deglutindo um produto geneticamente modificado, continuaria comendo normalmente? Ou melhor: se fosse possível escolher entre um prato de comida normal e um de comida geneticamente modificada, qual seria sua opção? Só você poderia responder. Hoje, porém, ainda não temos esta opção simplesmente por não saber se os alimentos consumidos são, ou não, modificados.
A dúvida também afeta elementos da filosofia e até da religião de cada um: se eu sou vegetariano, poderia aceitar consumir um vegetal cujo genoma tenha sido alterado pela inclusão de um gene de espécie animal, de uma vaca, por exemplo? E se eu sou um judeu um pouco mais ortodoxo, poderia comer uma porção de arroz que tenha recebido um ou mais genes de suínos? E se eu apenas quiser continuar comendo os consagrados produtos que a natureza desenvolveu ao longo de bilhões de anos?
A mera proibição dos transgênicos não importa em sua exclusão da realidade, porque não é possível definir os rumos da ciência por decreto. E nem é interessante. A bioengenharia já é um dos principais trunfos da espécie humana em relação às suas necessidades de sobrevivência. Por esse caminho passam a cura de doenças como o câncer e a Aids, a preservação de espécies ameaçadas de extinção e até mais alimentos para a população.
Muitos países estão resolvendo a questão pela obrigatoriedade de determinação, no rótulo dos produtos, de sua condição natural ou transgênica. Junto com uma fiscalização séria e a partir de princípios bem definidos que reforcem a segurança da população e do meio ambiente, este seria o caminho lógico. A medida poderia ser adotada de forma pioneira pelo Paraná, Estado de reconhecido know-how tanto em relação à agricultura quanto na defesa ambiental.
Se, apesar de esforços legislativos como os representados pelos projetos de lei nº 2.908/97 (que proíbe o cultivo comercial de sementes transgênicas), 2.919/97 e nº 2.905/97 (que propõem a rotulagem), a legislação ainda está em descompasso com a realidade, vale fazer a regulamentação em casa. Quem vai comer amanhã agradece.


