Córneas jogadas no lixo
Os hoaxes encontraram na área de saúde um terreno fértil para se alojar. O professor Renato Sabbatini, do Núcleo de Informática Biomédica da Universidade de Campinas (Unicamp), cita alguns clássicos do gênero: refrigerantes dietéticos dariam câncer no cérebro (o aspartame, adoçante artifical, liberaria substâncias cancerígenas ao ser metabolizado), desodorantes axilares gerariam câncer de mama (pois bloqueariam a secreção de toxinas pela cadeia de gânglios que drena a mama e que passa pela axila), assim como os sutiãs (que restringiriam a circulação sanguínea, o que causaria a acumulação de toxinas). Mais delirante, impossível.
''Na área de saúde, é possível perceber que estes boatos virtuais são escritos por gente que tem algum conhecimento do assunto, pois apresentam informações técnicas'', afirma Sabbatini. ''O que acontecem são interpretações erradas. Não acredito tanto em má fé. Qual seria o interesse de quem espalha informações como essas? São espíritos muito crédulos, de gente que fica apavorada ao ouvir algo e espalha. Os leigos é que são preocupantes, porque não entendem do assunto para saber que se trata de uma informação falsa''.
No ano passado, o Hospital Oftalmológico de Sorocaba, interior de São Paulo, se viu no centro de uma polêmica provocada pela divulgação de um email, em que um médico de Presidente Prudente defendia que a instituição estava com falta de pacientes, e muitas córneas estariam sendo ''desprezadas (jogadas fora)'' pois estariam extrapolando o ''período limite de uso''. A mensagem chegou até Alemanha e Portugual.
Ao fim, o próprio médico que divulgou a informação teve que enviar nota à imprensa desmentindo a notícia de que as córneas estavam sendo jogadas fora. ''Captamos muitas córneas, porém somos procurados por pacientes de todo o Brasil. A procura é muito maior do que captamos. Mesmo assim, temos a lista de espera mais rápida do país'', justificou o administrador do Hospital, Edil Vidal de Souza, em comunicado enviado à Folha.
''Temos a grande preocupação de que isto (o boato) possa diminuir o número de doações (de córnea) no Brasil. Atualmente, existem mais de dez mil pessoas na fila de espera por um transplante''.





