Cor de vinho tinto - Arlete Salvador
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de outubro de 1998
Arlete Salvador 
Meu avô paterno era italiano. De Treviso, no norte da Itália. Não se trata de nenhuma novidade em São Paulo, onde boa parte das pessoas tem parentesco com italianos. Nos últimos anos, estamos rivalizando com nordestinos em número, é verdade, mas a marca da influência italiana ainda é muito forte no sotaque cantado da cidade, para escândalo de ouvidos estrangeiros.
Há muito tempo penso na possibilidade de enfrentar a burocracia e reivindicar a cidadania italiana, a que tenho direito por ser neta de um deles. Com ela viria esse documento de aparência milagrosa que se chama passaporte italiano. O cartão de entrada na Europa pela porta da frente. Poderia me dar ao luxo de passar pelas filas da imigração reservadas aos cidadãos europeus.
Fila, no caso, é mera força de expressão. Nos aeroportos europeus, fila é apenas para os não cidadãos europeus. Os europeus da gema passam reto, sem mostrar o passaporte, responder a perguntas indiscretas sobre quanto dinheiro levam na carteira ou o que pretendem fazer no Velho Continente. Mais ainda: o tal passaporte significa direito ao trabalho, à liberdade, ao respeito como gente de primeira classe e não de terceira, como são encarados os brasileiros por aquelas bandas.
A lista da burocracia é tão grande que nunca me animei a reivindicar o tal documento. Vou adiando. Voltei a pensar no assunto ultimamente. E me dei conta que as recaídas que me fazem suspirar pelo passaporte cor de vinho tinto (a cor de todos os passaportes da União Européia) acompanham os altos e baixos do Brasil. Na época da inflação a 80% ao mês, aquele caderninho parecia-me a única esperança de salvação. Se a vida por aqui apertasse, eu sempre poderia pegar o primeiro avião para a Europa, com passagem só de ida. Ninguém me pediria lá o bilhete de volta confirmado.
Com a terrível ameaça de uma recessão profunda à nossa frente, com desemprego crescente e aumento de impostos, o Aeroporto de Cumbica volta a ser uma alternativa. Já vasculhei a gaveta atrás dos papéis antigos que me abririam as portas da Europa. Nunca quis, de fato, arrumar as malas para fincar raízes lá fora. Mas a idéia de ter essa chance, caso a vida por aqui se torne insuportável, oferece um certo charme de segurança. Se estiver afudando, é sempre possível abandoná-lo antes do desastre final.
Por isso, volto a suspirar pelo tal passaporte, com um sentimento de tristeza e desânimo. Tristeza por ter de enfrentar de novo a corredeira num barco de borracha. E desânimo por não vislumbrar alternativas de longo prazo, com alguma tranquilidade e segurança, que não incluam a passagem pela sala de trânsito do aeroporto internacional mais próximo. Não se sabe o que acontecerá amanhã, se a onda de desemprego desabará sobre nossas famílias com a força do furacão Georges, aquele que arrasou o Sul da Flórida, nos Estados Unidos. Não custa nada ter à mão o documento.
Sinal do medo que vai tomando conta dos brasileiros à medida que a data do anúncio do pacote econômico se aproxima. Há previsões tenebrosas para o ano que vem, para os próximos anos. Eu me agarro ao passaporte, ou à idéia de tê-lo um dia, como um náufrago a um tronco de árvore boiando no oceano.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo


