A ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada ontem, traz uma afirmação no mínimo arriscada: o Banco Central (BC) aposta na redução dos gastos públicos nos próximos meses. O documento é divulgado mensalmente e explica a decisão da semana passada, quando a taxa básica de juros (Selic) foi elevada de 8,5% para 9%. O que chama atenção é que as atas anteriores afirmavam que o aumento contínuo das despesas do governo contribuía para a inflação crescente.
O corte de gastos públicos é extremamente necessário, mas parece improvável que o governo federal adote uma postura mais austera às vésperas das eleições presidenciais e na qual a presidente Dilma Rousseff (PT) é candidata à reeleição. Aliás, o aumento das contas da administração federal tem crescido anualmente. No ano passado, por exemplo, a cifra atingiu R$ 805 bilhões, sem acrescentar os juros da dívida. Para efeitos de comparação, em 12 meses (de julho de 2013 a julho de 2012) o valor subiu para R$ 863 milhões.
Importante também lembrar que os gastos do governo até agora se mostraram eficazes para manter a renda e o emprego em alta. No entanto, esse modelo se mostra esgotado até porque a economia dá sinais de enfraquecimento. Além disso, um controle maior da inflação (a justificativa para elevar a Selic) provocará uma redução do consumo o que, consequentemente, reduz a geração de empregos e pode aumentar o desemprego. Indicador bem ruim para um ano eleitoral.
Se, provavelmente, não haverá corte de gastos públicos, resta entender a declaração do BC na ata do Copom. Ao adotar uma atuação independentemente do Ministério da Fazenda e do governo federal há vários anos, parece estranho uma afirmação como essa que, aliás, foi recebida com total ceticismo pelo mercado. A entidade ainda precisa recuperar a credibilidade da política de controle da inflação e, ao apostar na redução dos gastos públicos, parece que não irá conseguir.

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