Copel: quem herdará os postes?
Uma pesquisa regional da Rede Globo concluiu que 92% dos entrevistados não aprovam a venda da Copel. Na CBN de Curitiba, o resultado não ficou distante desses números: 85% desaprovam a venda de nossa Companhia de Energia Elétrica. São números significativos, mas para onde apontam? Que solução sugerem? Que caminhos indicam? Analisando-se friamente a questão, há uma lei estadual autorizando a venda e, para os bons entendedores, há que se considerar o recente recado do Palácio Iguaçu, na mídia do Paraná, afirmando que aqui neste Estado não há retorno. É só seguir em frente, passando pela montadora desativada, pela nova praça do pedágio, pela viatura policial parada por falta de gasolina, pela cadeia interditada e por aí afora, à procura de um retorno que não é admitido.
As ameaças de racionamento e racionalização no uso da energia elétrica são um claro alerta de que, por falta de investimentos, todo o País corre o risco de um blecaute no futuro. Os Estados e a União estão quebrados e não há como investir no setor energético. Angra foi um sonho, ou uma negociata, que jamais se concretizou, enterrando muitas hidrelétricas em suas paredes de concreto. O poder público exauriu-se em si mesmo, devorou-se em sua fome de alimentar-se, alimentando parasitas históricos que apenas a iniciativa privada é capaz de salvar a nação. Apenas nela residem hoje as soluções para todas as mazelas de um país que retornou no tempo, na questão social. Agora, é bom que se lembre que essa iniciativa privada investiu pesado na formação do atual quadro político, ditando o pensamento hoje vigente. E cobram caro por isso agora. O país está sendo fatiado aos interesses dos financiadores de campanha, quer de origem nacional, quer internacional. Preocupa saber até onde irá esse interesse, quando já não houver mais nada para ser vendido, ou fatiado aos tais financiadores da política nacional, além da Amazônia, da Mata Atlântica, das 200 milhas...
E assim, não mais que de repente, o Paraná acordou. Os vereadores de Curitiba movem uma ação contra a venda da Copel, questionam a Comissão Especial de Licitação da Copel e são chamados de ingênuos. A Copel precisa ser privatizada a qualquer custo!? O resultado não será diferente do que ocorreu em São Paulo, onde o IDEC, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, constatou que, nas favelas, as contas de energia subiram após a privatização da distribuição. Terá aumentado o consumo ou a distribuidora fez valer o que lhe garante a Aneel, Agência Nacional de Energia Elétrica: as empresas definem os critérios para concessão de tarifas sociais. Convivendo com a dengue, a febre amarela, a tuberculose, o tráfico de droga, a violência, o mato, o pequeno consumidor também terá que conviver com a tarifa normal, afinal, somos todos iguais perante a lei e perante a iniciativa privada.
As termelétricas, solução da iniciativa privada para a crise futura de energia, produzirão eletricidade a um custo de R$ 70 o megawatt/hora, enquanto a Copel produz a mesma energia a valores entre R$ 4 e R$ 10. As termelétricas utilizarão gás natural, importado da Bolívia, cotado em dólar, o que colocará o País na mesma dependência hoje existente em relação ao petróleo. É a globalização, que significa o globo todo investindo em e sobre as riquezas nacionais. Afinal, foi assim desde o pau-brasil, o ouro, os diamantes, etc. Hoje o doce é não menos tentador. O lucro líquido da Copel, em 2000, foi de R$ 430,6 milhões, 40% maior do que o de 1999. Contribuiu para isso o reajuste de 15,4% das tarifas. Teria esse reajuste sido mesmo necessário? Ou acontecerá como ocorreu na Inglaterra, quando as tarifas, antes da privatização subiram 7% para baixarem 2% após o processo. Sem se falar que o comprador da Copel leva de brinde um bom pedaço da Sercomtel.
Entidades se reúnem e se manifestam em todas as partes do Estado. Oportunistas abrem-se ao clamor público, tentando aproveitar-se dos holofotes da mídia sobre o assunto, encampando e tutelando o povo que, na visão deles, não sabe defender seus direitos e precisam de um porta-voz. Grandes debates foram, estão sendo e ocorrerão sobre o assunto. Abaixo-assinados estão sendo realizados em praças públicas por todo o Estado. Argumentos catastróficos convidam o povo a aderir. Um Fórum Popular Contra a Venda da Copel foi lançado. O PSDB vai à Justiça contra a venda da Copel. A sociedade se arma contra a venda da Copel, somando forças para recorrer a medidas políticas e judiciais. Até o Itamar meteu-se na briga! Deputados se põem contra a venda, mas não podemos nos esquecer que foram os deputados que votaram a lei que autorizou a venda. Voltará atrás o Legislativo? Mas no Paraná não há retorno!? Não se admitirá a abertura de um precedente. Ou vivemos novos tempos e tudo pode acontecer? Se a maioria dos deputados é contra a privatização da Copel, por que não anulam essa lei e não se fala mais no assunto? A exigência da venda da Copel parece estar contida num programa de desregulamentação do setor elétrico do governo federal. Parece que a ordem de privatizar vem de cima. Se assim for, estamos todos combatendo o exército errado. O que sobra de tudo isso, então, é uma luta inglória, que consumirá saliva e lágrimas, mas cujo resultado já está previsto há muito tempo. Mesmo sabendo que tudo o que o governo fizer contra a vontade do povo será tirania, conforme bem lembra o editorial da Folha de Londrina de 20 de março.
A energia elétrica é uma questão de soberania nacional e seria extremamente delicado ficar um país, na dimensão do Brasil, sujeito às oscilações do dólar e do humor dos fornecedores de gás natural para as termelétricas. Se até hoje a convivência entre os agricultores com terras alagadas e as hidrelétricas tem sido espinhosa, como seria após a privatização? A geração, a transmissão e a conversão da energia elétrica são setores estratégicos em todos os sentidos. Em último caso, poder-se-ia até, admitir a terceirização da distribuição, onde a concorrência pudesse resultar em melhores serviços, não fosse o fato de que os consumidores residenciais, por exemplo, jamais terão oportunidade de escolher sua fornecedora. A Copel mostra-se rentável e possivelnente será enxugada, com demissões e Planos de Incentivo à Aposentadoria, tornando-a ainda mais atrativa. Enxugá-la e mantê-la parece impossível diante das orientações superiores. O que fazer, então? Esse é o grande dilema e o grande debate de um Estado onde não há retorno. Por falar nisso, qual é a posição do seu deputado? Você está satisfeito?
- FÉLIX RIBEIRO é vereador pelo PPS e professor da Universidade Estadual de Londrina





