E lá vamos nós, com a ‘‘Família Felipão’’, em busca da nossa quinta Copa do Mundo. Que pode até acontecer, embora esta história de misturar família com futebol não me pareça uma jogada de craque. O que, aliás, Felipão nunca foi.
Família e futebol nunca falaram a mesma língua. Não há entrosamento entre eles. Futebol, é palavrão; família, é educação ou deveria ser. Família é freio, princípios, valores; futebol é liberdade, criatividade total, sem princípio, meio ou fim e o único valor que tem em conta – bancária – é o dinheiro.
Mas, entre todos os contrastes que atrapalham a relação família/futebol, um ganha de goleada: o tempo. Futebol, todo mundo sabe, precisa de um certo tempo para que a equipe se entrose, 10, 15 dias é pouco. Daí em diante, se o time for bom, ninguém segura, ganha de goleada.
Já família, é exatamente o contrário: nos primeiros 10 dias, o entrosamento é perfeito, maravilhoso, parece uma equipe comemorando um gol, abraços a torto e a direito – o papo flui redondo e alegre feito uma bola de futebol nos pés de Denílson. Passou de 10 dias juntos, também ninguém segura: é chutão e botinada – sem bola – pra todo lado e a harmonia é jogada para escanteio.
Sentiram o perigo que ronda a nossa meta de voltar do Oriente pentacampeão de futebol? Se Copa do Mundo fosse uma competição menos longa, 10 dias no máximo, até que essa junção família/futebol poderia dar certo.
O problema é que a ‘‘família Felipão’’, se o Brasil for até a final, vai ficar uns 40 dias junta, o tempo suficiente para as fofocas dominarem o meio de campo e velhos ressentimentos tomarem conta do espetáculo. Que se torna deplorável.
Mas família, ainda bem, lembra religião. Bom chefe de família que é, Felipão, pra espantar o mau olhado, foi à missa lá na Coréia para agradecer as graças recebidas e pedir, à Nossa Senhora, que seus atletas continuassem protegidos contra as contusões que andam dizimando outras seleções.
Parece que a Santa fala outra língua. Resultado: Emerson contundido no ombro e cortado da Copa. Uma pessoa menos afeiçoada às coisas divinas, deve ter pensado que foi um castigo, que Felipão perdeu a proteção da Santa. Nada disso, gente, foi um milagre, Felipão continua nas boas graças da Santa.
Vejam bem: Emerson machucou sozinho, num racha, jogando de goleiro, sem ninguém pra botar a culpa. Que só pode ser da Santa, que não só entende de futebol melhor que Felipão, como deve ser corintiana, já que chamou Ricardinho para o lugar de Emerson.
Agora, apesar da ‘‘família Felipão’’, estou começando a acreditar no Penta. Não por causa do Ricardinho, mas pelo fato dele ter chamado para o lugar do Emerson um jogador criativo que joga futebol como deve ser jogado, pra frente, em vez de um xerife sem estrela que só sabe mirar a canela dos adversários.
Apolo Theodoro é jornalista e empresário em Londrina.

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