Aos 67 anos, o ex-deputado estadual curitibano Mário Celso Cunha, conselheiro do Clube Atlético Paranaense, passou os últimos anos à frente de uma das mais problemáticas sedes da Copa do Mundo, competição que começa esta semana em São Paulo e que dá o pontapé inicial em Curitiba na segunda-feira que vem, com Irã x Nigéria.
Em entrevista exclusiva à FOLHA, o coordenador do Mundial no Paraná faz críticas às altas somas aplicadas nas sedes que vão usar estádios públicos, para ele um dos motivos da aparente rejeição ao torneio também na capital paranaense.
Cunha sugere que a opinião pública também está sendo influenciada pelo noticiário das emissoras que não detém os direitos de transmissão e até por paixões clubísticas.
Ele defende a criticada programação de jogos da capital – além da jogo da próxima segunda, a tabela prevê Honduras x Equador, dia 20; Austrália x Espanha, dia 23; e Argélia x Rússia, dia 26. "As críticas são infundadas. Partem de pessoas que tem inveja, aqueles que não conseguiram comprar ingressos e ficaram contra a Copa e das torcidas rivais do Atlético", afirma. Confira abaixo a entrevista completa concedida por e-mail.


Vai ter Copa em Curitiba? Esta dúvida realmente foi pertinente em algum momento?

Vai ter Copa em Curitiba, com certeza. No início do ano, por conta de um atraso na liberação da verba do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) houve um risco muito forte da Copa não acontecer em Curitiba. Tudo por causa do fluxo de caixa, já que o financiamento que era para estar disponível em 2010 saiu somente em 2013. Mas hoje está tudo ok, com a Fifa assumindo desde 22 de maio a administração da Arena CAP.

O senhor reconhece a falta de apoio popular para a Copa? O que contribuiu para isso?
As pesquisas apontam que mais da metade da população apoia o evento. Contudo, há uma parte significativa contra. Acredito que muito pela mídia negativa das emissores que não detém os direitos de transmissão, outra parte pela rivalidade clubística e muita gente pelos gastos excessivos nas obras dos estádios públicos. Teremos apenas três estádios particulares no Mundial, em Curitiba, Porto Alegre e São Paulo. A arena curitibana foi a que teve menor custo – cerca de R$ 330 milhões. A CAP S/A pagará pelos empréstimos feitos, inclusive deu as garantias necessárias para os financiamentos. Em Porto Alegre, a arena também teve um custo mais baixo em relação às outras, cerca de R$ 370 milhões. Agora, como aceitar um Maracanã custando mais de R$ 1,4 bilhão, um Mané Garrincha, custando mais de R$ 1,5 bilhão? Isso gera insatisfação e manifestação.

A Copa em Curitiba foi redimensionada para um tamanho mais realista?

Do planejamento inicial, na questão do estádio, por exemplo, nada foi alterado. No PAC da Copa foram retirados três projetos: a Avenida Cândido de Abreu (via do Centro Cívico que ganharia um calçadão de um quilômetro de extensão entre a Prefeitura e a Praça 19 de março, obra que seria executada pelo governo municipal), o Corredor Metropolitano (79 km de vias que integrariam algumas vias da Região Metropolitana) e a alça de acesso da Avenida Senador Salgado Filho, no bairro Uberada (ambas de responsabilidade do governo estadual). Nada disso altera a capacidade de mobilidade urbana, pois Curitiba foi quem mais aproveitou a liberação de recursos da Caixa Econômica Federal. Algumas sedes não conseguiram aprovar nenhum projeto e outras apenas um deles. O Paraná apresentou projetos para nove grandes intervenções e aprovou as seis que estão sendo finalizadas.

A Arena da Baixada receberá os jogos do Mundial em um formato mais modesto que o projeto original, que previa um teto retrátil. O senhor se sente frustrado com isso?

Não existe esta história de incompleta. A Arena está completa. Todo o planejamento e organograma da CAP S/A (Sociedade para Propósitos Específicos criada para captar e gerir os recursos aplicados na reforma da praça esportiva) foi cumprido. Alguns desinformados falam sobre o teto retrátil, que nunca fez parte do projeto da Copa. A própria Fifa não permitiu a sua conclusão por uma questão de isonomia com as demais sedes. (Na verdade, a Fifa preferiu descartar o equipamento em agosto para reduzir as chances do estádio não ficar pronto a tempo, conforme noticiou o próprio site do Ministério do Esporte). Desta forma, o Atlético colocará o teto retrátil após terminar a Copa. Faz parte do projeto do clube e não da Copa. Também está programada a construção da Areninha, instalação para 10 mil pessoas que começará a ser erguida após o Mundial.

Muita gente diz que a programação de jogos de Curitiba é pouco atraente. O senhor concorda?
As críticas são infundadas. Partem de pessoas que tem inveja, aqueles que não conseguiram comprar ingressos e ficaram contra a Copa e das torcidas rivais do Atlético, com exceções é claro. Porém, a atual campeã do mundo, a Espanha, jogará no Paraná e ficará concentrada no Centro de Treinamentos do Caju, do Atlético, em Curitiba. Uma grande visibilidade. A próxima anfitriã da Copa 2018, a Rússia também jogará em Curitiba e fará um laboratório para o próximo megaevento. Foram 240 seleções disputando as eliminatórias e só restaram 32. Não existe seleção ruim. Todo jogo da Copa é motivante. Tanto que todos os ingressos colocados à venda estão esgotados. Não existe mais ingresso para os quatro jogos da Arena. Lembrando que teremos quatro jogos. Porto Alegre, que tem dois campeões mundiais, terá cinco jogos. As principais sedes terão sete jogos. A diferença não é grande. Lembrando outra coisa: em 1950 tivemos dois jogos em Curitiba, agora, dobrou.

Qual é a estimativa oficial de turistas estrangeiros e brasileiros? O número estará dentro da expectativa?

Esperamos receber, de acordo com a previsão da Embratur e das operadoras de turismo, um total de 120 mil turistas estrangeiros no Paraná, além de 600 mil turistas brasileiros. Pelo Porto de Paranaguá estarão chegando dois navios de turistas espanhóis (cada um com 1.500 passageiros) e um navio de chilenos. Via terrestre virão caravanas da Argentina, Paraguai e Chile. Somente do Chile estarão passando por Foz do Iguaçu 800 ônibus fretados.

E em relação a festa oficial da Fifa, a Fan Fest, existe algum temor?
Nenhum. A programação conta com quatro shows nacionais (Dudu Nobre, Erasmo Carlos, Raça Negra e Jota Quest) e mais 70 shows de artistas locais. Existe uma grande expectativa de público. Já fizemos dois testes, com simulações na Pedreira Paulo Leminski, local do evento: um no show do Roberto Carlos e outro no show do grupo O Rappa. Deu tudo certo. Em relação ao clima, existe planejamento para todo tipo de situação.

E quantos às estruturas de embarque, de desembarque, de deslocamentos e para a imprensa, alguma preocupação especial?
Nenhuma preocupação quanto à mobilidade urbana. Há muitos anos a cidade está preparada para isso. No aeroporto, o investimento da Infraero chegou a R$ 400 milhões, a rodoferroviária está pronta, entregue ao público. As estruturas temporárias no entorno da Arena estão 90% concluídas, com a empresa Gogo finalizando os trabalhos esta semana.

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