Cooperativas, juros e o protecionismo
João Paulo Koslovski
Os jornais da última terça-feira trouxeram matéria da Agência Estado sobre a tese da formanda em administração de empresas Fabíola Regina Santos, que enfoca as cooperativas de produção agrícola e o crédito. Julgamos que a citação de cooperativas que estariam tentando ‘‘evitar a falência’’ é extemporânea e prejudicial ao sistema, pois o estudo, que é empírico, cita informações colhidas antes de 1997, enquanto a maioria das cooperativas do Paraná citadas estava com uma situação totalmente diferente e em fase de recuperação. Não é assim, amadoristicamente, que se analisa empresas sérias, que estão há anos no mercado.
No entanto, a matéria traz à discussão o complexo de problemas que têm tirado o sono dos empresários que atuam no agribusiness. O grande golpe contra a agricultura começou em 1986, com o Plano Cruzado, e foi agravado em 1990, com o Plano Collor 1, que congelou os preços dos produtos agrícolas mas corrigiu em 84,32% as dívidas dos agricultores. Além do mais, ‘‘congelou’’ os recursos financeiros utilizados como capital de giro, iniciando aí a desestruturação do setor.
Em consequência disso, o Brasil passou a ser um grande importador de alimentos, ficando os problemas da agricultura relegados a um segundo plano. Linhas de crédito, seguro agrícola, pesquisa e assistência técnica tiveram o mesmo fim.
O Plano Real, lançado em 1994, praticamente repetiu os defeitos do Plano Collor 1, comprimindo os preços dos produtos enquanto os encargos financeiros subiram mais de 30%. Evidentemente, toda a sociedade aprovou o fim da galopante inflação. No entanto, milhares de empresas, inclusive bancos, que já enfrentavam um processo de descapitalização, foram apanhadas em condições desfavoráveis pelo plano.
No entanto, o Brasil não resolveu, nesses quatro anos de Plano Real, seu problema de juros, que continua sendo o principal entrave ao desenvolvimento e à recuperação da competitividade das nossas empresas, especialmente as agrícolas. O acordo do Gatt, transformado em Organização Mundial do Comércio, e o Mercosul, introduziram novos fatos e dificuldades nas relações comerciais, agravando a desvantagem dos produtos agrícolas brasileiros no mercado internacional.
O governo poderia ter adotado medidas de redução dos impactos da competição externa na nossa agricultura, mas preferiu deixar que o próprio mercado acomodasse a situação num primeiro momento. O que de fato ocorreu foi o aumento das importações, especialmente algodão, trigo e leite, graças aos juros baixos e prazos longos oferecidos pelo mercado financeiro internacional aos importadores brasileiros. Esses três setores foram severamente castigados junto com suas empresas não preparadas para esse tipo de jogo do mercado.
Sobrevieram praticamente sem crise as empresas mais capitalizadas da área de grãos, setor menos afetado pelas importações. As empresas que mais sofreram as consequências dessa guerra de mercado, agravada pelas altas taxas dos juros praticados internamente, foram aquelas que mais tinham acreditado que era necessário investir para crescer. Os juros altos, os prazos curtos e o protecionismo externo, aliado à falta de apoio, marginalizaram essas empresas do mercado e dilapidaram seus patrimônios.
Embora alguns insistam em analisar apenas as crises das cooperativas - provavelmente pela sua vinculação de caráter social - foram os agentes financeiros os que apresentaram os maiores prejuízos, e que exigiram do governo uma injeção estimada em US$ 20 bilhões para apaziguar o setor, sem no entanto ter acabado com os problemas.
Centenas de empresas ligadas ao agronegócio passaram ou passam por dificuldades. Grandes processadoras de alimentos tiveram que vender ativos ou mudar de dono para não fecharem.
Agora, depois de securitizar as dívidas dos agricultores até o limite de R$ 200 mil, o governo vem apoiar com o Recoop também as cooperativas que se descapitalizaram ao longo dos diversos planos econômicos. O Recoop é um programa ousado, que vai contribuir para a reestruturação do sistema cooperativista, permitindo integrações, parcerias e, eventualmente, o surgimento de novas cooperativas.
JOÃO PAULO KOSLOVSKI é engenheiro agrônomo, presidente da Ocepar e vice-presidente executivo da OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras)

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