Cooperativas e a cara do futuro - Wesley Montechiari Figueira
Cooperativas e a cara do futuro
Wesley Montechiari Figueira
Após longos anos vivendo debaixo de um regime fechado à competição estrangeira, as cooperativas brasileiras, em sua grande maioria, sentiram o peso da competição. Sentiram também o peso de alguns anos de problemas nos preços de algumas de suas commodities. O sistema ameaça ruir sob o peso, ainda de estruturas montadas para uma outra época, e para outro nível de eficiência exigido delas.
O maior problema do sistema, contudo, não residiu nos pesados impactos de um mercado em abertura e vertiginosa mudança. Todo o mercado sentiu o mesmo, algumas empresas (não cooperativas) tendo ruído debaixo do estrondo e pasmo da opinião pública. É preciso entender o sistema cooperativo por dentro. Quando se faz isso, algumas mazelas aparecem de imediato.
Um dos pontos nevrálgicos do setor cooperativo reside em sua própria estrutura de poder, por sua natureza de compartilhando em suas decisões mais importantes. O fato é que essa característica intrinsecamente boa pode-se demonstrar ser uma grande fragilidade na hora de competir com empresas particulares, ágeis e onde decisões de vital importância não têm que ser compartilhadas com centenas, às vezes milhares de cabeças, nem sempre homogêneas.
Outra característica do sistema, e que parece não dar mostras de mudar, no curto prazo, é a qualidade gerencial. Costuma-se dizer que, no sistema cooperativo, é questão de pura sorte escolher uma diretoria competente e que leve o patrimônio comum a aumentar, e não dilapidá-lo.
É uma equação difícil de se resolver. Quando uma cooperativa vai bem, tem-se de fora a impressão de que é muito fácil geri-la, daí advêm as tomadas de poder articuladas em assembléias muitas vezes pouco representativas da vontade do grupo. Esta equação, contudo, poderia ser parcialmente anulada, como já fizeram inúmeras cooperativas, pela constituição de administradores profissionais fortes, e de um sistema de comunicação entre ela e os associados que permitisse que cada cooperado, numa forma adequada, pudesse perceber a real situação econômico-financeira da entidade da qual também é dono.
Alguns fatos podem comprovar esta tese:
- Administrações profissionais tendem a manter o mercado e os associados mais bem informados - o pequeno associado, principalmente, mal sabe o que passa com sua cooperativa. Normalmente, é pego de surpresa pela não entrega de insumos adquiridos, pela falta de pagamento por colheitas, entre outros.
- Administrações profissionais tendem a ser mais pragmáticas sobre as reais possibilidades de distribuição de sobras (como são chamados os lucros, em cooperativas) aos associados, não onerando os ativos da entidade desnecessariamente. O administrador profissional tende a ser mais conservador, evitando a dilapidação dos bens da cooperativa,
- Administrações profissionais, normalmente, são mais cautelosas na contração de empréstimos para financiar crescimento, perfazendo análises mais bem fundamentadas, antes de dar passos nesse sentido.
Em síntese, administrações profissionais tendem a ser mais prudentes na condução do bem comum cooperado, além de terem maior visão de conjuntura na hora de analisar expansões ou aquisições, geralmente feitas ao sabor dos ímpetos, muitas vezes pessoais ou de grupos de comando.
A atual crise do sistema cooperado forjará, sem dúvida, uma nova geração de administradores. O novo programa de reestruturação do sistema (Recoop), já traz consigo uma virtude básica: a de exigir estudos de viabilidade antes da liberação de qualquer recurso. Isso é novidade, e é ótimo que assim seja. Louve-se aqui o trabalho das OCEs (Organizações de Cooperativas dos Estados), em particular da Ocepar, que, tendo identificado o risco de injetar capital em cooperativas sem condições de recuperação, tem lutado para o crescimento e para a saúde do sistema, como um todo.
- WESLEY MONTECHIARI FIGUEIRA é gerente de Auditoria da Consult.





