Os pouco mais de dez mil habitantes da pequena Catanduvas (50 km ao sul de Cascavel) receberam um ''presente de grego'' em junho do ano passado, quando foi instalada na cidade a primeira penitenciária federal de segurança máxima do país. A chegada de presos perigosos como o traficante Fernandinho Beira-Mar, somada à proximidade do presídio e do centro da cidade, assustou os moradores. Mas segundo Miguel Ide, diretor de uma escola municipal que fica muito próxima ao presídio, o clima na cidade é tranquilo, e a população - apesar de ser contrária - aprendeu a conviver com os vizinhos indesejáveis.

Em entrevista à FOLHA em junho do ano passado, quando foi inaugurada a penitenciária, o senhor afirmou que o presídio poderia ser considerado seguro, e só o tempo diria se a iniciativa daria certo. E agora, qual é a avaliação?
A cidade reagiu normalmente à chegada do presídio. Posso dizer até que aumentou a sensação de segurança, porque aumentou o número de policiais na região. Não houve nenhum crime vinculado à chegada da penitenciária. A única coisa que não surtiu efeito foi a vinda dos agentes penitenciários. Poucos deles moram aqui. A circulação de dinheiro na cidade, no comércio, é muito pequena. Por outro lado, a cidade não tem estrutura para abrigá-los. A maioria é jovem, prefere ficar em cidades de maior movimento, então quase todos moram em Cascavel. Há a promessa de que a Caixa Econômica Federal construa casas para os agentes morarem aqui.

E a valorização imobiliária aconteceu?
Sem dúvida. Os lotes valorizaram muito. Antigamente os terrenos custavam muito barato, e estes valores aumentaram substancialmente. Principalmente porque quem tem não quer vender, esperando uma valorização ainda maior.

Do que foi prometido para a cidade como contrapartida para instalação do presídio, o que foi cumprido?
Foi prometida uma unidade da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTF-PR), mas até agora nada. É compreensível até, porque não sei se daria muito resultado instalar a universidade em uma cidade tão pequena.

A escola que o senhor é diretor fica bem próxima ao presídio. Como os
alunos lidam com essa proximidade?

Não houve mudança nenhuma no comportamento deles. É normal, como se não houvesse nenhuma penitenciária. Havia certo temor de que a proximidade entre a penitenciária e o colégio fosse trazer algo de ruim para os alunos, mas não houve isso. Se fosse uma cadeia, seria muito pior. Tem até um lado positivo, porque o professor pode trabalhar noções de cidadania com os estudantes, apontar as consequências que um ato fora da lei pode ter.

Excluindo esses aspectos, o senhor está quase sugerindo que o saldo da chegada da penitenciária é considerado positivo na sua opinião?
Positivo até que não aconteça o contrário. A gente sabe que está sujeito a acontecer, porque existe o risco. Mas pelo que eu tenho visto até o momento, acho que a cidade pode ficar tranquila. Claro que ninguém gosta de ter uma penitenciária perto de casa. Mas algum lugar tinha que ser escolhido e acabou sendo Catanduvas. Passou de município para município e acabou ficando aqui. Se você fizer um parâmetro, com o dinheiro gasto para construir a penitenciária era possível fazer dez escolas iguais a nossa. A cidade até ficou conhecida nacionalmente, infelizmente por um motivo que deve ser considerado negativo. Mas a vida da população continua normalmente, com tranquilidade.

mockup