CONVIVENDO COM A PENITENCIÁRIA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de novembro de 2007
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
Os pouco mais de dez mil habitantes da pequena Catanduvas (50 km ao sul de Cascavel) receberam um ''presente de grego'' em junho do ano passado, quando foi instalada na cidade a primeira penitenciária federal de segurança máxima do país. A chegada de presos perigosos como o traficante Fernandinho Beira-Mar, somada à proximidade do presídio e do centro da cidade, assustou os moradores. Mas segundo Miguel Ide, diretor de uma escola municipal que fica muito próxima ao presídio, o clima na cidade é tranquilo, e a população - apesar de ser contrária - aprendeu a conviver com os vizinhos indesejáveis.
Em entrevista à FOLHA em junho do ano passado, quando foi inaugurada a penitenciária, o senhor afirmou que o presídio poderia ser considerado seguro, e só o tempo diria se a iniciativa daria certo. E agora, qual é a avaliação?
A cidade reagiu normalmente à chegada do presídio. Posso dizer até que aumentou a sensação de segurança, porque aumentou o número de policiais na região. Não houve nenhum crime vinculado à chegada da penitenciária. A única coisa que não surtiu efeito foi a vinda dos agentes penitenciários. Poucos deles moram aqui. A circulação de dinheiro na cidade, no comércio, é muito pequena. Por outro lado, a cidade não tem estrutura para abrigá-los. A maioria é jovem, prefere ficar em cidades de maior movimento, então quase todos moram em Cascavel. Há a promessa de que a Caixa Econômica Federal construa casas para os agentes morarem aqui.
E a valorização imobiliária aconteceu?
Sem dúvida. Os lotes valorizaram muito. Antigamente os terrenos custavam muito barato, e estes valores aumentaram substancialmente. Principalmente porque quem tem não quer vender, esperando uma valorização ainda maior.
Do que foi prometido para a cidade como contrapartida para instalação do presídio, o que foi cumprido?
Foi prometida uma unidade da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTF-PR), mas até agora nada. É compreensível até, porque não sei se daria muito resultado instalar a universidade em uma cidade tão pequena.
A escola que o senhor é diretor fica bem próxima ao presídio. Como os
alunos lidam com essa proximidade?
Não houve mudança nenhuma no comportamento deles. É normal, como se não houvesse nenhuma penitenciária. Havia certo temor de que a proximidade entre a penitenciária e o colégio fosse trazer algo de ruim para os alunos, mas não houve isso. Se fosse uma cadeia, seria muito pior. Tem até um lado positivo, porque o professor pode trabalhar noções de cidadania com os estudantes, apontar as consequências que um ato fora da lei pode ter.
Excluindo esses aspectos, o senhor está quase sugerindo que o saldo da chegada da penitenciária é considerado positivo na sua opinião?
Positivo até que não aconteça o contrário. A gente sabe que está sujeito a acontecer, porque existe o risco. Mas pelo que eu tenho visto até o momento, acho que a cidade pode ficar tranquila. Claro que ninguém gosta de ter uma penitenciária perto de casa. Mas algum lugar tinha que ser escolhido e acabou sendo Catanduvas. Passou de município para município e acabou ficando aqui. Se você fizer um parâmetro, com o dinheiro gasto para construir a penitenciária era possível fazer dez escolas iguais a nossa. A cidade até ficou conhecida nacionalmente, infelizmente por um motivo que deve ser considerado negativo. Mas a vida da população continua normalmente, com tranquilidade.


