Convivência social: objetivo não alcançado
O estado do Espírito Santo está dando uma aula de teoria política por causa da paralisação dos policiais militares. A greve que se iniciou no último dia 2 e suas consequências demonstram que não existe um contrato social entre cidadãos.
Em uma sociedade, a harmonia entre os cidadãos e a articulação das instituições é essencial para manutenção da vida. O que se resume em falta de condições materiais para todos. Ouso a dizer que não é exclusivamente o Espírito Santo, mas todo Brasil. Não se oferece o mínimo de transporte público, saneamento básico, bem como as condições mínimas de trabalho, da livre iniciativa e salário digno para que se possa viver.
O que mais espanta é que as violências praticadas pelos policiais omissos de seu dever, também repercute a violência velada por parte dos dirigentes governamentais. A Justiça também tem sua parcela de culpa em deixar a situação chegar a esse ponto.
Os cidadãos, perdidos, já não sabem mais o que fazer. Enquanto isso, as imagens da selvageria, dos arrombamentos e do abrir fogo, só nos fazem chegar a uma conclusão: não existe a possibilidade de se ter uma sociedade que não seja pela força. Por mais que existam as leis, não existe normatividade, fazendo enfeite no papel.
As pessoas não são educadas a ponto de manter uma sociedade, e estamos vivendo nos limites da barbárie, se não houver censura. A falta do bom senso, nos leva ao ciclo vicioso de dependência da violência.
Não deveríamos depender apenas dos policiais para que eles salvem a sociedade, este deveria ser o papel de qualquer cidadão. Os policiais, como qualquer outro cidadão, só trabalham para a convivência, mas nós nos acostumamos ao terror da vigilância.
Se ainda pautarmos nossos esforços em manter uma sociedade nos mesmos padrões, de repressão policial, da eterna vigilância, não podemos falar na expansão dos nossos direitos.
Assim não dá para levar a sério as declarações pedindo a extinção da Polícia Militar, porque basta a polícia parar que as pessoas passam ser donas de tudo. Falta maturidade para que todos os cidadãos contribuam para a boa convivência.
Isto não tem a ver com a falta de instrução, da educação formal aprendida nas escolas, porque mesmo dentro dessas instituições existe violência. Independente do grau de formação, não é isso que cria convivência.
Acontece que depositamos nossa fé no sistema prisional (última instância de neutralização do indivíduo), onde o intuito não é oportunizar uma sanção educativa e trazer o indivíduo à normatividade, mas depositar seres humanos.
"O alienista", de Machado de Assis, é uma representação desta situação desesperadora. Esconder o problema e seguir a vida não é a solução, porque ao excluirmos tudo também estamos excluindo nossa humanidade.
Doravante, separar as pessoas ruins das pessoas más não vai resolver porque sempre vai haver algo que odiaremos no outro. Assemelhando e nos aproximando de algumas experiências históricas que o predomínio de uma parcela não quer dizer o todo. Tal qual o regime nazista.
Portanto, há a necessidade de estarmos juntos, compartilhar momentos que nos façam crescer como seres humanos. É próprio do ser humano estar compartilhando o dia a dia, um sentimento em comum. A oportunidade de um debate que procure oportunizar conexões e empatia faria construir uma sociedade mais harmônica.
Isto não quer dizer que não vá existir violência, ela também é própria do ser humano. Vão ascender outros mecanismos mais de coerção e normatização, o que também é natural. Nem por isso que iremos praticar atos de selvageria para a nossa sobrevivência. Nosso dever é buscar cada vez mais liberdades, ainda respeitando a urbanidade e a civilidade.
Os capixabas estão se aniquilando, uma guerra contra a própria existência. E isto, não é modelo de sociedade, não é modelo de nacionalidade, não é modelo teórico político.
VITOR HUGO IRINEU SANTOS é graduado em História pela Universidade Estadual de Londrina
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