Convivência democrática - Kido Guerra
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de outubro de 1998
Kido Guerra 
Joaquim Roriz precisa ter mais cuidado com o que fala, agora que está eleito governador do Distrito Federal para os próximos quatro anos. Os eleitores que invadiram as ruas de Brasília na noite de domingo passado, numa espécie de caça às bruxas petista, podem ter sido motivados pelas rancorosas declarações do futuro governador tão logo sua vitória nas urnas foi confirmada.
O governador eleito afirmou que pretende expulsar de Brasília seus adversários derrotados, e disse também que quem perde eleições não tem força para fazer oposição. Não são palavras de um governador, da principal autoridade do Distrito Federal.
Com esse discurso rancoroso e agressivo, Roriz desrespeitou não só o governador Cristóvam Buarque e sua equipe de governo, mas sobretudo os 501.523 cidadãos que votaram no PT, além dos 203 mil eleitores que se abstiveram de votar, e 25.646 que votaram nulo ou em branco. No total, mais de 730 mil pessoas - cerca de 60% dos eleitores do Distrito Federal - não escolheram Roriz governador do Distrito Federal, eleito por 537.753 votos. Essas pessoas merecem ser respeitadas.
As mesmas palavras estimularam cenas de violência e agressão desde a noite de domingo, quando os vencedores saíram às ruas com ódio no coração, com um sentimento de revanche, com uma agressividade avalizada por Roriz e só justificada pela enorme raiva que devem sentir do governador Cristóvam Buarque. Especialmente depois da arrogância com que Cristóvam enfrentou Roriz nos três debates, submetendo-o à inquestionável humilhação intelectual.
As cenas de violência gratuita prosseguiram ao longo da semana, protagonizadas por eleitores de Roriz que, com a vitória de seu candidato, pensam agora estar avalizados para agredir funcionários do Programa Saúde em Casa, invadir terras públicas, construir barracos, desobedecer às faixas de pedestres, ignorar os pardais, xingar eleitores do PT.
O governador eleito já disse uma vez, mas precisa insistir junto aos seus eleitores, que sua vitória nas urnas não representa - pelo menos, não deveria representar - a derrota da cidadania adquirida no Distrito Federal.
Joaquim Roriz deve também respeito aos moradores do Plano Piloto e também os do Guará e do Cruzeiro, que, em sua esmagadora maioria não o queriam governador do Distrito Federal - 183.219 votaram em Cristóvam; 99.328, em Roriz - e acordaram de luto na segunda-feira com a derrota de seu candidato. Mas Brasília não é apenas o Plano Piloto, e o Plano saiu da disputa derrotado por 10 zonas eleitorais, algumas de grande peso como Taguatinga, Ceilândia e Samambaia.
A convivência entre Roriz e o Plano Piloto será diária e pretende-se que seja pacífica. Para isso, o respeito mútuo é imprescindível. Roriz não deve considerar adversários os eleitores de Cristóvam, assim como a oposição, em nome do bem-estar de Brasília e sua população, não deve torcer pelo fracasso do futuro governador. É o futuro da cidade que está em jogo.
A propósito, se Roriz conseguir cumprir metade das suas promessas de campanha - muitas consideradas fantasiosas, como a geração de 150 mil empregos - poderá terminar o mandato com a imagem de bom governador. Caso contrário, passará para a história da cidade como o homem que, ao promover a distribuição gratuita de mais lotes pelo Distrito Federal (estimulando indiretamente a migração para Brasília) sem gerar empregos, ajudou a transformar Brasília na capital da desordem.
- KIDO GUERRA é jornalista em Brasília


