Conversa de música
A música é a fala dos anjos (Thomas Carlyle). Vai-se aproximando do número 100 o programa que apresento na Rádio MEC do Rio (FM 98.9), sob o mesmo título desse artigo. Ele nasceu de um bate-papo com Heloisa Fischer, uma jovem musicóloga que num país que não costuma incluir a boa música ou música erudita entre seus temas favoritos consegue viver da música, profissionalmente, sem ser compositora ou instrumentista.
Ela já me tinha convidado para apresentar um programa com as minhas preferências musicais na Rádio Opus 90 uma iniciativa do JB, que teve curta duração e é mãe da idéia básica do programa: de que não é preciso vestir rigor para apreciar boa música. Bem diferente de uns programas que a TV apresentava, antigamente, em que aparecia o maestro Diogo Pacheco, como MC, para explicar um pouco do que se estava apresentando, vestido, contudo, de smoking...
Houve época, nesse nosso mundo ocidental, em que não havia essa distinção boba entre música clássica e música popular. Música era música e pronto. Os instrumentos é que ainda não eram tecnologicamente muito avançados e os executantes tiravam dos avós dos atuais violões e violinos, flautas e clarinetas e da percussão sons que mal podemos imaginar, hoje, mas que têm algo a ver com o que os conjuntos de música antiga gravam em CDs, como sendo os sons autênticos de mil anos atrás, ou mais. Não são. Mas nunca saberemos como foram...
Na Idade Média, trovadores e menestréis compunham e tocavam as músicas que todo mundo ouvia e quase não havia diferença entre o que se apreciava dentro ou fora dos castelos. Mesmo depois, passando pela rigidez das fórmulas religiosas e o surgimento do humanismo renascentista, o que se tocava tanto nas festas populares como nas coroações dos soberanos eram peças de Haendel, Gabrieli ou Vivaldi que hoje ouvimos como música clássica.
Nos tempos de Haydn, Mozart e Beethoven, música era a grande diversão dos comerciantes e artesãos, que começavam a constituir a ainda incipiente classe média, e era prática comum o arranjo de óperas, concertos e sinfonias, para a execução no piano, flauta ou violão ou combinações desses instrumentos, para que pudessem ser tocados nas casas das pessoas numa época em que não havia luz elétrica e muito menos a idéia de um som fosse ele o disco de acetato, precursor, de 78 rotações ou os CDs atuais. Todo mundo sabia tocar algum instrumento.
No meu programa Conversa de Música, venho tentando reviver essa relação lúdica que as pessoas já tiveram com a música hoje chamada clássica. Desde o início, há cerca de três anos, já serviram de tema para a seleção de peças musicais inteiras ou trechos países como a Argentina, Finlândia ou Suécia, música composta por mulheres (como Clara Schumann e Fanny Mendelssohn), animais, casamento, jazz, Shakespeare, Romeu e Julieta, água, noite, alegria, ciganos, fantasmas, cinema, Woody Allen, crianças, canções de ninar, instrumentos inusitados, o milênio, fim-de-século, temas militares, temas politicamente incorretos (principalmente os que se tornaram enredos de óperas), tempestades, máquinas, modernidade, inspiração... Hoje sei que a lista é infindável.
Quanto mais programas faço, mais idéias tenho (e os amigos sugerem), mais cresce a lista de espera dos programas por fazer. Alguns dos temas na fila: cidades, Leonard Bernstein, arranjos populares de MC e música para viola. Se tiver alguma sugestão a fazer, não se acanhe. O e-mail está aí.
Mas, embora faça parte da nossa própria natureza, a música permanece como um grande mistério. Fico a imaginar aquela tradicional cena do marciano chegando à terra, disfarçado, tentando entender o que as pessoas de fato estão fazendo, ao produzir e ouvir música, talvez a mais verdadeiramente humana entre as invenções do homem.
Mas será mesmo? Em Como, na Itália, ano passado, ouvi, da janela, um passarinho local assobiar o que era um trecho inconfundível do Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Descartando a possibilidade de ser o pássaro amante de ópera, imagino que foi Rossini que um dia ouviu seu tetravô e aproveitou o tema...
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é jornalista, publicitário, professor e dirigente universitário em instituição no Rio de Janeiro
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