Houve um tempo em que discutir doenças e remédios era coisa de consultório médico. De gente velha. Enquanto se esperava o doutor chegar (eles sempre chegam atrasados), passava-se o tempo competindo para saber quem tinha a dor mais aguda, quem fez a pior cirurgia e, claro, para trocar milagrosas receitinhas caseiras.
Agora, o tema ocupa os horários nobres e os indigestos, como o café da manhã, almoço e jantar. A TV disseca sem cerimônia estômagos, cérebros, balas perdidas e acidentes vasculares-cerebrais. Doenças e tratamentos viraram tema de conversas de bar, de reuniões familiares e de taxistas. Não falta um doutor em qualquer um desses eventos.
As descobertas, então, entram e saem de cartaz mais rapidamente que filme cult, aqueles que os intelectuais adoram e o povão detesta. A última novidade, por exemplo, é a tal pílula que não deixa engordar. O sujeito come como um touro e, mesmo assim, permanece com o perfil do Marco Maciel. É a salvação dos comilões.
Não se salvam nem os medicamentos e tratamentos considerados ‘‘naturais’’. Ficaram mais caros que os juros brasileiros. Um punhado de bolinhas brancas, que dizem ser de uma erva natural da Amazônia, custa mais do que uma passagem aérea para Manaus, proporcionalmente. Tratamentos alternativos, com direito a relaxamento e música new age, valem uma estada num bom hotel para duas pessoas e com direito a meia pensão.
A indústria da saúde (ou da doença ou dos medicamentos) inferniza a saúde alheia. Ir ao médico virou programa de madame e de gente politicamente correta. Quem não tem o seu médico ortomolecular está por fora. Quem não toma bolinhas homeopáticas já é suspeito de ter o vírus da Aids. Os exames laboratoriais seguem a mesma paranóia. Quem não leva o seu eletrocardiograma debaixo do braço não pode nem mais andar no parque. É considerado suicida em potencial.
O bombardeio de informações sobre doenças e medicamentos nos jornais e na TV beira a histeria. Pesquisas são divulgadas num dia e derrubadas no outro. O açúcar que era execrado num momento agora é considerado fundamental para o desenvolvimento das crianças. A carne vermelha já foi banida e incluída num cardápio saudável em dezenas de oportunidades. Às vezes é vilã. Noutras, heroína. Quando é boa para o fígado, faz mal para a hérnia de disco.
Acontece o mesmo com os medicamentos. De vez em quando, servem para curar uma doença. Depois, já não servem mais. Podem servir, ou viram veneno mesmo. A tonelada de informações médicas despejada sobre as cabeças do cidadão comum é um desrespeito à saúde. Tortura, amedronta e ameaça. Quem não tem nada sempre descobre um sintomazinho suspeito. Quem tem, vai dormir preocupado.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo

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