Conversa de boteco - Entre o legal e o imoral em um país de farsantes
Espaço aberto publicado em 13 de fevereiro de 2026
Pressupõe-se que o Judiciário se estabeleça em um país para fazer justiça (ser justo).
Como imaginar que seja justo quando esse Judiciário se atribui uma série de privilégios com o já escasso dinheiro público, que faz falta para um bom atendimento à saúde, à educação e à segurança da população?
E, quando é questionado, responde: “Reconheço que pode até ser imoral, mas é legal.”
Então eu me pergunto: que país é este em que, no Judiciário, a moralidade dominante se permite, com a maior cara de pau, produzir benefícios e vantagens para si mesmo, sendo que ele próprio admite que podem ser imorais?
Como pode um ministro da Justiça receber proventos de empresas que estão sendo julgadas sob seu guarda-chuva de influência?
Como pode haver ministros do STF vendendo sentenças e praticando tráfico de influência, seja diretamente, seja por meio de escritórios de advocacia de parentes, companheiros e amigos, de maneira absolutamente imoral (mas legal)?
Como considerar moral um Poder Judiciário no qual mais de 90% dos magistrados ganham muito acima do teto constitucional?
Um Judiciário que custa cerca de 150 bilhões ao ano, o que corresponde a 1,5% do PIB, enquanto, em países em desenvolvimento, a média é de 0,5% do PIB, além de ser um dos mais ineficientes do mundo.
Como justificar um poder que emana do povo (como o Executivo e o Legislativo), usando recursos públicos em constantes viagens em jatinhos da FAB para assistir a jogos de futebol, ir a festas particulares e participar de reuniões sem finalidade pública, além de muitos estarem envolvidos em “orçamentos secretos” e serem vezeiros em indicações de parentes, companheiros e amigos para cargos em estatais e ministérios, com finalidades nem sempre confessáveis?
Num Estado patrimonialista, como no “o Estado sou eu”, cito aqui uma frase do presidente FHC, dita há quase 20 anos, durante seu governo:
“Lamento dizer, mas, dada a experiência brasileira, o que puder ser privatizado é melhor privatizar. Esta não é a minha formação cultural nem meu sentimento íntimo. Ou aumentamos a dose de privatizações, ou vamos ter de novo um assalto ao Estado pelos setores políticos e corporativos.”
Estamos vivendo no Brasil uma situação extrema de preservação de privilégios adquiridos (instituídos pelos próprios privilegiados) das corporações e dos poderes públicos em detrimento dos interesses dos brasileiros comuns.
Muitas vezes, a regulamentação e a Justiça têm estabelecido como legal o que qualquer alma minimamente sóbria consideraria absolutamente imoral.
Neste país de farsantes e hipócritas, de baixíssima estatura moral, que exemplos deixaremos para as futuras gerações?
Que história poderemos contar desta época sombria, repleta de omissões e covardia, que tanto nos envergonham?
Claudio Tedeschi – leitor da Folha
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