Conversa com Nicolau Maquiavel
Hoje quero contar aos leitores um episódio inusitado. Pasmem os senhores, pois estive frente a frente com o grande mestre da Ciência Política, Nicolau Maquiavel. Dos confins do Renascimento ele veio atender ao meu apelo, pois eu queria compreender o que se passa nesse Brasil tão tumultuado em termos de política e de economia. E quão diferente o achei de Karl Marx, que encontrei há pouco tempo no Shopping Higienópolis, em São Paulo, para uma entrevista.
No construtor da utopia comunista percebi algo de arrogante e de autoritário, e sua cabeleira e barba desgrenhadas faziam sua figura parecer um tanto vulgar. Já em Maquiavel se revelava o porte elegante. Seus olhos negros e hipnóticos se destacavam no rosto fino e pálido, e suas vestes negras sob a longa capa escura sobre a qual cruzava as finas mãos brancas, davam-lhe um toque quase monacal. Enfim, todo seu aspecto me lembrou o de um nobre ou de alguém acostumado às cortes de outrora.
Eu o vi nesta sexta-feira passada, surgindo de forma fantasmagórica ao cair da tarde enquanto o sol punha no céu um resto de fogaréu em nuvens rubras que se despediam no horizonte. Eu o esperava em Brasília, centro do poder. O local do encontro, por uma dessas ironias do destino, já que o florentino foi tão perseguido pela Igreja que o denegriu e difamou, foi a Catedral, que naquela hora do Ângelus filtrava a luz solar através dos seus imensos vitrais. No ambiente sagrado de sutis colorações róseas ele chegou com passos suaves, sentou-se ao meu lado no banco e com um leve aceno de cabeça me cumprimentou, enquanto me fitava intensamente. Tomada de indescritível emoção iniciei nossa conversa:
- Mestre, com imensa honra ousarei conversar consigo. Sei que tão grande é sua humanidade que me responderá, claras serão suas respostas e magníficas as suas lições. Assim, quero saber se o Brasil tem remédio.
- Cara mia, os mesmos desejos e as mesmas paixões reinaram e ainda reinam em todos os governos e em todos os povos. Por isso é fácil, para quem estuda com profundidade os acontecimentos pretéritos, prever o que o futuro reserva a cada Estado, propondo remédios já utilizados pelos antigos ou, caso isto não seja possível, imaginando remédios baseados na semelhança dos acontecimentos.
- Maquiavel, diga-me, por favor, o que faz a grandeza de um Estado, pois acho que o nosso anda falto de muita coisa.
- A base principal de todos os Estados são boas leis, boas armas, bons amigos e bons exemplos.
- Infelizmente, mestre, neste País a corrupção e a mentira espirram dos bastidores do poder por todos os lados. Por que isso acontece conosco?
- Porque não é o interesse particular que faz a grandeza dos Estados mas o interesse coletivo. Na política brasileira tem prevalecido o interesse particular.
- Mestre, tenho que lhe segredar que vivemos no Brasil uma situação em que a impunidade campeia. A violência urbana é uma constante. O MST destrói propriedades, saqueia, ateia fogo às sedes das fazendas, faz reféns, toma prédios públicos. Os bandidos estão mais bem armados do que a polícia. Que conselho daria ao príncipe que governa nossa república?
- Se essas discórdias são previstas, podem ser remediadas facilmente; se se espera sua ocorrência, o remédio deixará de ser oportuno, tornando-se a moléstia incurável. Acontece como na tísica, que, conforme os médicos, no princípio é fácil de curar mas difícil de reconhecer, e que com o tempo, quando não é desde logo reconhecida e tratada, torna-se fácil de reconhecer e difícil de tratar. Em todo caso, que saiba seu príncipe que a força é justa quando necessária.
- Nosso príncipe, Maquiavel, apesar dos benefícios que tem trazido ao povo, anda com o prestígio diminuído nas pesquisas de opinião. Isso é grave para ele?
- Muito. É necessário que o príncipe tenha o favor do povo, senão lhe faltarão recursos na adversidade. De todo modo, será preciso ter cuidado com aquilo que fizer, e no que acreditar; é necessário que não tenha medo da própria sombra, e que aja com equilíbrio, prudência e humanidade, de modo que o excesso de confiança não o leve à imprudência, e a desconfiança excessiva não o torne intolerante.
- Mestre, desde algum tempo tramam contra nosso príncipe os partidos de oposição, cuja meta é ocupar seu lugar. A tática tem sido a desmoralização do governante e já se monta uma CPI com essa finalidade.
- Os príncipes não podem evitar ser odiados por algumas pessoas; devem, por conseguinte, evitar primeiramente o ódio da massa; se isso não for possível, será preciso que usem todos os meios para escapar à ira dos partidos mais poderosos. Por isso os imperadores que necessitavam favores extraordinários, apoiavam os soldados e não o povo, decisão cuja utilidade dependia da capacidade de manter seu prestígio junto àqueles.
- Nicolau Maquiavel, digo-lhe, muito cá entre nós, que na nossa República se queixam do nosso príncipe, dizendo que lhe falta mais pulso para dirimir os abusos e punir os corruptos de forma exemplar. Com isso ele começa a ficar sozinho. A esquerda não o aceita e diz que ele é da direita. A direita não reconhece os aspectos positivos do seu governo e acha que ele é de esquerda.
- Entenda, Maria Lucia, que o soberano será desprezado se for visto como volúvel, tímido e irresoluto. Conclui-se, portanto, que quando a disposição do povo é propícia, o soberano tem pouco que se preocupar com as conspirações; mas quando seus súditos são hostis, precisará temer a todos e a cada um.
Nesse momento Maquiavel se levantou e disse: Lucia, o prazo de minha permanência se esgotou. Devo voltar ao meu tempo e à minha Florença. Mas vamos ainda nos rever, pode ter certeza. Tchau, cara mia.
E lá se foi ele de forma majestosa até desaparecer junto ao altar-mor da Catedral já imersa nas sombras da noite. Só me restou, então, tremulamente, repetir a inscrição gravada no seu túmulo pelo grão-duque Leopoldo de Toscana: Nenhum elogio à altura de tal nome.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é professora de Ciência Política em Londrina
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