CONTRIBUIÇÃO SOCIAL - Aumenta medo de fraude em campanhas solidárias
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Herika Fondazzi<br>Reportagem Local 
Além de alegre e hospitaleiro, o brasileiro gosta de se descrever como solidário. Mas se os números mais recentes de grandes campanhas de solidariedade forem comparados, é possível dizer que essa qualidade vem diminuindo a cada dia. Recordes em grandes movimentos na televisão já não acontecem como há alguns anos.
Os exemplos mais marcantes dessa mudança são as campanhas para ajudar regiões destruídas por desastres naturais. De acordo a Defesa Civil, foram arrecadados cerca de 4.300 toneladas de alimentos para as vítimas das enchentes em Santa Catarina em 2008. Para os desabrigados pelas chuvas deste ano no Nordeste, a quantia foi bem menor: 500 toneladas de comida para o Ceará e 106 toneladas para o Maranhão (o Estado do Piauí, também atingido pelas enchentes, ainda não contabilizou a quantidade de alimentos recebidos).
A FOLHA conversou com o professor de psicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Carlos Augusto Serbena sobre essa mudança no comportamento dos brasileiros. Segundo ele, não nos tornamos menos solidários, apenas escolhemos mais qual tipo de ação merece ajuda.
O senhor acredita que os brasileiros tenham ficado menos solidários?
Acho que não. O que precisamos levar em conta nesse caso específico dos Estados é que a região Sul é muito mais valorizada socialmente do que o Nordeste. O espaço na mídia e a repercussão social é maior. Acredito que o valor tenha sido menor por essa questão. A mídia também comentou menos sobre o Nordeste do que sobre Santa Catarina.
Mas em outras campanhas clássicas de arrecadação feitas pela televisão os montantes têm sido menores do que em outras edições...
Aí precisamos pensar que existe a solidariedade das pessoas e a solidariedade como elemento social. A mídia ultimamente tem sido muito questionada e as instituições também. Algumas suspeitas de irregularidade geraram nas pessoas um descrédito com essas grandes campanhas. O que se vê mais hoje são as contribuições localizadas.
As pessoas estariam optando por ajudar quem está mais perto delas?
Exatamente. As pessoas têm o desejo de contribuir, mas a falta de confiança nas instituições cria um medo de que o dinheiro doado não seja investido corretamente. Quando se colabora com alguma causa mais próxima, as pessoas podem ver o resultado da ação delas. Quando alguém doa dinheiro, espera que ele seja bem aplicado. Se existe a possibilidade de desvio, é normal haver o receio em ajudar.
A solidariedade é algo inerente ao ser humano ou as campanhas incentivam a doação?
Somos sempre muito solidários e também muito egoístas. Se não fossemos solidários, a humanidade já teria se extinguido. Para manter a espécie, somos solidários naturalmente. São as questões ambientais que vão estimular um desses dois sentimentos. Os brasileiros são bastante solidários no seu grupo fechado, com a família, mas quando chega-se no meio social, com o desconhecido, a situação se inverte. Nosso país ainda está aprendendo a se civilizar e ser solidário com o outro.
Então solidariedade não é uma atitude isolada, como simplesmente doar dinheiro?
A solidariedade começa essencialmente com o respeito ao outro e a compaixão. Está ligada à capacidade de se colocar no lugar do outro.
O que faz uma pessoa ser mais solidária do que outra?
O ser humano é muito diferente entre si. Cada um é um indivíduo e o mesmo comportamento pode ter múltiplos fatores. O que podemos dizer de maneira geral é que a ideia de compaixão que cada um tem é o que determina seu desejo de ajudar. É o sentimento de não querer que o outro sofra.
A rotina moderna é bastante complicada e vivemos em um mundo bastante individualista. Isso também interfere...
Em uma sociedade muito capitalista e muito competitiva, você tende a ver o outro não como um semelhante, um companheiro, mas como um competidor. Isso obviamente estimula mais o egoísmo do que a solidariedade e a compaixão. Quanto mais individualista é a sociedade, menor a tendência das pessoas em serem solidárias. Mas o homem não vive apenas sendo indivíduo, ele precisa da relação de igual com as pessoas.


