Contrastes deste final de século - Maria Lucia Victor Barbosa
Maria Lucia Victor Barbosa
Neste final de século vemos a vitória do liberalismo baseado nas liberdades civis, no livre mercado e na democracia. Portanto, queiram ou não os inconformados socialistas, assiste-se ao triunfo do capitalismo liberal, sendo que a queda do Muro de Berlim há dez anos simbolizou o triunfo da liberdade sobre a tirania, do progresso sobre o atraso, da prosperidade sobre a penúria, e mais ainda, o fim da divisão da Europa e do pesadelo da guerra fria.
O ano de 1989 foi também um desses anos que parecem ser uma encruzilhada do tempo, onde processos históricos culminam, desencadeando-se a partir daí uma nova era. É que em 1989 aconteceu o impensável: como um castelo de cartas ruiu o bloco comunista por obra da perestroika arquitetada pelo presidente soviético Mikhail Gorbachev.
Assim, naquele ano memorável, desmoronou a profecia de Karl Marx, o qual previu através de sua concepção dialética que ao capitalismo se sucederia inexoravelmente o socialismo e depois o comunismo, última etapa da humanidade, fim da história, paraíso na terra.
O paraíso terrestre significando a igualdade perfeita entre os homens e a felicidade completa, é difícil de acreditar. Muitas utopias já foram sonhadas neste sentido, mas nenhuma se realizou. O que sempre existiu entre os humanos foi um ideal de perfeição, que pode ser perseguido e alcançado em termos parciais de gradual aperfeiçoamento e progresso, mas dada a natureza humana, nunca completamente.
Em parte por causa disto, o paraíso de Marx, precedido pela fase socialista a ser implantada violentamente através da ditadura do proletariado, na prática esteve longe da utopia prevista pelo pensador alemão. O socialismo teve por resultado, isto sim, o terror, com milhões de dissidentes mortos. Além disso, em toda parte em que foi adaptado, desencadeou as mesmas consequências: igualou por baixo no atraso e na pobreza, mantendo simultaneamente as regalias e privilégios das castas dominantes; gerou a burocratização excessiva e a decorrente corrupção; acarretou um dos piores males ao extirpar a liberdade.
Mas apesar de tudo, os adeptos que restaram do marxismo-leninismo, sobretudo aqueles que não viveram o totalitarismo, continuam a cultuá-lo. Uns o fazem por considerá-lo ingenuamente como o único caminho viável para alcançar o paraíso na terra, sem perceber ou aquilatar o que a história mostrou ao mundo. Outros, que se autodenominam líderes, pretendem apenas com o aceno desse caminho obterem sua afirmação pessoal de poder. São estes que mantêm acesa a chama da utopia no coração dos ingênuos, dos iludidos e dos inconformados, sendo que alguns desses líderes logram ainda transformar ideologia em fé, Estado em religião, Marx em messias, liberalismo em Belzebu.
A partir dessa argumentação, não se quer afirmar que o capitalismo é o paraíso em contraposição ao inferno do socialismo. E isso já foi de certa forma esclarecido neste artigo quando se tocou na imperfeição da natureza humana, o que a torna incapaz de realizar a perfeição plena, seja em que sistema for. Em todo caso, é evidente que o capitalismo evoluiu, aperfeiçoou-se e adaptou-se aos tempos atuais, o que possibilitou sua afirmação neste final de século em contraposição ao fracasso do socialismo. Além disto, este sistema é o mais capaz de gerar riqueza e progresso. Finalmente, como foi consignado num dos editoriais do O Estado de S. Paulo de quinta-feira passada, não se encontrou nada melhor do que o capitalismo e a democracia liberal.
Apesar, porém, de todas as evidências positivas do capitalismo liberal, no Brasil alguns nostálgicos do socialismo insistem em querer implantá-lo em solo pátrio. Assim, volta e meia são feitas manifestações de ferrenhos antiliberais, as quais, sintomaticamente, acabam em fracasso.
A última dessas manifestações, organizada pela CUT e o MST, se deu quarta-feira passada e recebeu o nome pomposo de Dia Nacional de Paralisação e Protesto em Defesa do Emprego e do Brasil. A idéia era a de paralisar a produção, ressuscitando o velho sonho sindicalista de greve geral (que, diga-se de passagem, nunca chegou a se consumar). O número de participantes e os resultados foram pífios, e os sem-terra se limitaram a alguns atos de violência e depredação como é do seu feitio.
Possivelmente por conta desses fracassos da esquerda, a CNBB quer que padres-cantores como o padre Marcelo Rossi, que é capaz de reunir multidões incalculáveis em atos dos carismáticos deixe de lado a espiritualidade, própria das religiões, para se envolver na pregação política dos teólogos da libertação. Esta decisão dos bispos é lamentável, não só porque foram justamente os teólogos progressistas que contribuíram em boa parte para o afastamento dos católicos, como tal atitude evidenciaria o profundo contraste entre a mentalidade do atraso e do progresso existente no século que se finda.
A esquálida esquerda brasileira está pedindo também reforço às suas congêneres de outras partes da América Latina, e em atendimento ao apelo, entre os dias 6 e 11 de dezembro haverá em Belém (PA) o 2º Encontro Americano pela Humanidade e Contra o Neoliberalismo. As principais estrelas do evento serão organizações guerrilheiras tais como: o MST (Movimento dos Sem-Terra) as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) do México. Também marcarão presença a CPT (Comissão Pastoral da Terra), a CUT (Central Única dos Trabalhadores), vários partidos de esquerda, comunidades indígenas, homossexuais, punks, anarquistas etc. No material de divulgação do encontro está o chamamento animadíssimo do mascarado subcomandante Marcos, líder do EZLN: Todos os ventos já têm um destino: Belém, Pará, Brasil.
Provavelmente, eles vão se divertir a valer sobre os escombros do Muro de Berlim, enquanto dançam pagode na contramão da história. Que todos os ventos os levem.





