Contra tudo - Fernando José Dias da Silva
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 17 de julho de 1998
Fernando José Dias da Silva 
Avanço ou correção de erro, não importa. Depois do terremoto financeiro asiático, o neoliberalismo está repensando os seus dogmas. O pessoal anda mais cuidadoso ultimamente e já não carrega o triunfalismo dos vencedores que eles ostentavam depois da queda do Muro de Berlim.
Aquela certa arrogância, que era exemplificada na figura do economista Jeffrey Sachs (uma espécie de Gustavo Franco mais articulado) ao ditar as normas para a inserção da Rússia no mundo capitalista, já não existe mais. O deus mercado, as privatizações, o Estado mínimo, as desregulamentações ainda fazem parte do breviário dos neoliberais. Mas agora com uma pitada de carinho, que se traduz na preocupação com o emprego, com saúde, com a educação e com o meio ambiente.
O vice-presidente do Banco Mundial, Joseph Stiglitz, levanta até uma hipótese que deve causar calafrios nos ortodoxos. Ele diz que nada prova que uma inflação abaixo dos 40% ao ano possa trazer problemas para o crescimento econômico dos países em desenvolvimento. Ao contrário: estudos recentes sugerem que baixos níveis de inflação podem até melhorar o desempenho da economia.
Stiglitz vai mais longe na sua heresia. Em artigo publicado na Folha de S. Paulo, o vice-presidente do Banco Mundial afirma com todas as letras que não se deve tratar o Estado como inimigo. O Estado tem um papel importante; o de responder aos fracassos do mercado, que são uma característica geral de qualquer economia com informações imperfeitas e mercados incompletos. A questão não é se o Estado deve intervir ou não. A questão é saber de que forma deve intervir. O mais importante é que não devemos considerar o Estado e os mercados como substitutos um do outro.
Esse debate ainda não chegou nas páginas políticas dos jornais. Mas está começando a se dar internamente, principalmente dentro do PSDB. A briga entre o ministro José Serra e a equipe econômica do governo pode ser vista sob esse prisma. Serra e seus aliados andam reclamando porque o debate ainda é pobre no Brasil. O ministro considera inclusive que a prática das políticas públicas tem sido usada aqui para desmontar o intervencionismo estatal, mas são tímidas na construção de alternativas. E a velha questão de colocar o que em cima da demolição.
A privatização, por exemplo. Segundo especialistas, se há pouca competição as privatizações podem gerar monopólios privados não regulados que resultem nos consumidores pagando preços ainda mais altos. Monopólios privados, isolados de competição, podem ser ineficientes e não adquirir as características de modernizadores.
É muito difícil voltar ao passado nesses tempos globais. E aí a oposição também está perdida no meio da selva sem canivete suíço. A esquerda, principalmente, é contra tudo. Mas não apresenta uma alternativa. Pode-se até não concordar com a reforma da Previdência. Só que não dá para defender o sistema como estava funcionando até aqui. Essa é uma das muitas questões que precisam ser equacionadas.
A campanha eleitoral seria um bom momento para que esses assuntos fossem levantados. Mas, por enquanto, o governo só consegue dizer que está fazendo tudo certo e a oposição se limita a retrucar afirmando que está tudo errado.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo


