CONTRA TUDO - A vida no Brasil é muito ruim
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de junho de 2013
Rubens Chueire Jr.<br>Reportagem Local 
A redução das tarifas de ônibus em várias cidades, principal reivindicação dos protestos que tomam conta do País, não foi suficiente para reduzir o ímpeto dos manifestantes. A cada dia novos atos levam milhões às ruas.
E o leque de reivindicações tem aumentado a cada manifestação. Dos gastos para realização da Copa do Mundo à corrupção, da PEC 37, que reduz o poder de investigação do Ministério Público à baixa qualidade dos serviços públicos. Tudo virou alvo da insatisfação dos participantes dos atos.
Para o cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Renato Perissinotto, essa diversidade de temas é prejudicial, uma vez que reduz a possibilidade de obter resultados concretos.
"Existe uma insatisfação difusa na sociedade brasileira porque a vida no Brasil, ao contrário do que as pessoas costumam dizer, é muito ruim, inclusive para a classe média. Convivendo com um trânsito caótico, tendo que pagar altos impostos, tendo que usar planos de saúde, que estão piorando cada vez mais. Então veio essa vontade de manifestar", analisa.
Qual a explicação para onda de protestos que tomou conta do País?
Nessa altura dos acontecimentos é difícil a gente falar de movimento no singular. Acho que poderia dividir a resposta em dois pontos: algo muito claro e coerente e, por outro lado, uma série de reivindicações difusas. O primeiro é que toda essa onda nasceu como um movimento muito claro, com uma reivindicação precisa e uma liderança clara, que é o Movimento Passe Livre (MPL) de São Paulo, com ramificações pelo território brasileiro. E eles têm insistido nisso, que a mobilização se iniciou para pedir a redução da tarifa de ônibus.
O movimento tem uma pauta mais abrangente, mas que não está sendo veiculada agora, em torno do transporte público. Só que quando você começa a colocar gente na rua, se perde o controle de quem participa da mobilização. E este controle tende a ser menor à medida que os atos se expandem.
Então o que se vê é esta reivindicação clara, que tem que ser sistematicamente lembrada, sendo embaralhada por um conjunto de manifestações e reivindicações muito difusas, ambíguas, pouco específicas, que jamais poderiam se transformar numa pauta concreta. Então, neste momento, o que vemos é um movimento inicialmente muito específico, que começa a ser um pouco sufocado por um conjunto de reivindicações muito amplo, contra a corrupção, contra a Copa do Mundo, por um Brasil melhor, coisas que você não sabe muito bem o que significa. São apenas palavras de ordem.
E fica complicado discutir uma série de reivindicações sem uma pauta concreta, sem uma liderança organizada?
Exatamente. O que percebo pelas informações que consigo coletar é que na verdade a gente presencia uma luta em torno da definição da natureza da mobilização. E acho que temos que insistir que o movimento tem uma pauta específica, tem uma liderança específica, mas que tende a escapar um pouco do controle e tornar a coisa mais opaca.
Quais são as potencialidades destas mobilizações?
A reivindicação original do MPL é muito positiva. A pauta referente ao transporte público é uma sacada porque discute uma série de outras relações importantes para a sociedade brasileira. Se eles conseguissem implementar a tarifa zero, que é uma das pautas permanentes do movimento, ou mesmo a proibição do aumento dos R$ 0,20, isso teria um impacto fundamental na distribuição de renda.
Segundo cálculos do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), o salário mínimo em São Paulo é comprometido em 30% com o transporte coletivo. Então imagina se o trabalhador não tem mais esse custo, isso representaria um aumento real de salário. O transporte coletivo tem a ver com democratização da cidade.
Outro alvo dos manifestantes são os gastos com as copas das Confederações e do Mundo, tanto com estádios quanto com obras de mobilidade urbana.
Organizar um evento como a Copa do Mundo e não ter um avanço no ponto de vista da mobilidade urbana é um escândalo. Vemos arenas maravilhosas no meio do nada. A Arena Pernambuco estava cercada de lixo até pouco tempo atrás. As pessoas estão tentando chegar aos estádios por meios de transportes completamente inadequados. E para além da Copa, é a questão do dia a dia. É necessário um transporte mais prático, que permita a circulação com conforto e agilidade. Desta maneira você amplia o acesso da população a uma infraestrutura já pronta. Não significa abrir mão das reivindicações de implantação de equipamentos em regiões mais pobres, mas permitir que as pessoas possam usar a cidade e circular por ela.
Qual foi a importância do uso das redes sociais na divulgação dos protestos?
Se lembrarmos que há uma insatisfação difusa na sociedade brasileira em relação a vários aspectos, a repressão da polícia e o aumento da tarifa acabaram criando um estopim, um canal de acesso para que uma motivação já presente se manifestasse. Então as redes sociais são muito importantes porque são um mecanismo imediato de divulgação do que está acontecendo, de convocação para passeatas. Mas são apenas um meio. Se não houver pessoas dispostas a participar, as coisas não acontecem. Essas passeatas revelam a existência de uma motivação para contestar, para reclamar contra uma série de coisas. Existe uma insatisfação difusa na sociedade brasileira porque a vida no Brasil, ao contrário do que as pessoas costumam dizer, é muito ruim, inclusive para a classe média. Convivendo com um trânsito caótico, tendo que pagar altos impostos, tendo que usar planos de saúde, que estão piorando cada vez mais. Então veio essa vontade de se manifestar. Estava latente e isso criou um canal de reivindicação que é muito divulgado nas redes sociais.
O que podemos esperar daqui para frente em relação às manifestações?
Essa situação gerou uma esperança. E se há uma forte esperança está no fato de que existe um movimento que é mais organizado do que as pessoas supõem, que tem uma pauta concreta na sua reivindicação e que, se for atendida e encaminhada, pode gerar de fato efeitos muito positivos na política nacional. Pode ser fonte, inclusive, de renovação de lideranças políticas. Esse movimento que não tem vinculação com partido pode ser um viveiro de novas lideranças. Muitas pessoas que estão dando entrevistas, com 21 e 22 anos, têm uma maturidade política absurda. Isso é outra enorme vantagem deste movimento: arejar a liderança política.
De alguma maneira isso pode influenciar no comportamento da sociedade? As pessoas podem passar a cobrar mais ações efetivas das autoridades?
O brasileiro é muito mais mobilizado do que se sugere. Só que essas mobilizações grandiosas não acontecem com frequência. Tem várias categorias que cobram seus direitos, trabalhadores que fazem greve, setores que defendem causas específicas. A questão do transporte é genial porque é específica o suficiente para gerar entendimento e encaminhamentos concretos, mas toca em tantas questões mais amplas que pode mobilizar mais categorias do que somente as interessadas no movimento. Isso é extremamente importante.


