Em toda eleição o fenômeno se repete: quem está na frente das pesquisas, e com alguma distância, para o ''arrastão'' final vem com a tese do voto útil. Isso vai se repetir agora no pleito nacional, pois a marcha ascensional de Lula e a paranóia de perder outra vez no segundo turno aconselham o esforço de mobilização. Fernando Henrique e Lerner, por duas vezes, o conseguiram.
Tenta-se algo como o ''estouro da boiada'' no campo psicossocial para guiar mentes e corações. No caso da eleição presidencial há até alguma perspectiva de se obter o resultado por essa mobilização, desde que o petista não pise na bola e não ocorra algum fato de última hora em benefício de outro postulante.
Quem está inteiramente contra o voto útil é a rede de restaurantes de Santa Felicidade. Como é o local preferido para ''boca livre'' em eleições ou até convenções e comícios opíparos, o bairro-colônia é pelo segundo turno e se fosse possível pelo terceiro e mesmo a repescagem.
As pessoas mais lúcidas e céticas - e isso se acentua na eleição regional, já que na nacional há opções que não se cinjam à procura do ''menos pior''- acham cada vez mais que estamos muito mais perto do ''voto inútil'' porque a bateria de promessas suscitadas não tem a menor consistência na realidade. E magia e prestidigitação ficam mais adequadas a outro tipo de circo.
HUMOR PROPOSITIVO O ator Cláudio Manoel da troupe ''Casseta & Planeta'' fez uma simulação de comício do personagem ''Seo Creison'' em São Paulo que reuniu cerca de 10 mil pessoas. Se não tivéssemos o voto eletrônico certamente ele receberia não milhares mas milhões de votos para governador, presidente e senador e deputado. Como esse exercício, tão legítimo como o de não votar, até aqui não consagrado entre os direitos, está interditado, o jeito é aceitar as caricaturas não apenas dele como de outros integrantes do grupo ''global'' como relevantes formas indiretas de educação política.
Temos que aceitar a solene estupidez de candidatos que pululam por aí a fazer o pior e mais primário dos cortejamentos criando espectativas que sabem que jamais serão atendidas até porque inviáveis então por que não admitir que ''Seo Creison'', ainda que pareça falar aos ''lúmpens'', aos despolitizados, aos descamisados com sua sintaxe engraçadíssima e de forte empatia, é um agente menos diluidor do que muitos dos que se julgam proferindo as maiores asnices com o empertigamento de um acórdão.
Muita gente desceu o sarrafo nas eleições do rinoceronte Cacareco, em São Paulo, do macaco Tião no Rio e do Bode Cheiroso em Olinda, mas o deboche, aparentemente subversivo, e com certa medida pedagógica, não ampliou e nem diminuiu o ceticismo em torno da forma como praticamos política. O arsenal de picaretagem, presente nos apelidos incluídos como nome fantasia dos candidatos em ação, dá bem a medida da seriedade com que esse pessoal encara o processo. Em Paranaguá um tal de ''Segismundo'' se apresentou como paródia do personagem ''Sugismundo'' das campanhas oficiais em defesa da higiene e do meio ambiente e quase levou a Prefeitura daquela importante cidade.
O RECALL Já me referi a uma questão colocada pela jornalista Dora Kramer que avaliou a aplicação do disposto no Código do Consumidor sobre a propaganda enganosa em política. O código permite a devolução da mercadoria. Até os vibradores, dias passados, foram objeto de um ''recall'' por apresentarem defeitos. Dos candidatos e da imagem que eles passam, via ''marketing'', não temos como nos defender, a não ser na perspectiva do liberal Thoreau que legitimava a rebelião civil contra os déspotas. A derrubada de Collor foi um desses momentos mágicos da vida brasileira, a negação do conformismo habitual e de rotina, a prática alienada da obediência aos rituais da sacanagem.

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