Contra-ataque certeiro
Tanto no PT quanto no PSDB, as últimas pesquisas de intenção de voto são vistas com reservas. Elas têm indicado uma ligeira melhora na posição do candidato do PSDB, José Serra, como segundo colocado na disputa com cerca de 20% dos votos. Já o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, está estacionado no patamar de 40%, com pequenas alterações, dependendo da pesquisa. O balanço desses resultados mostra que o PSDB, depois de meses de disputas internas, encontrou um eixo, uma diretriz eleitoral. E ela aponta na direção de um confronto aberto com o PT.
A estratégia do PSDB daqui para a frente é até óbvia explorar as fragilidades do adversário. E o adversário que o próprio PSDB escolheu, o PT, ignorando solenemente as outras duas candidaturas que ainda podem ameaçar a posição de Serra como segundo colocado na disputa. Anthony Garotinho, do PSB, e Ciro Gomes, do PPS, oficializaram ontem suas candidaturas, mas vêm sendo tratados como carta fora do baralho. Interessa ao PSDB insistir na idéia de que a eleição se dará entre entre o seu candidato e Lula, mesmo que isso não esteja suficientemente garantido até o momento.
Dentro dessa estratégia, o PSDB foi buscar o que os seus dirigentes chamam de contradições do PT. No fundo, a idéia é demonstrar que a imagem do novo Lula, construída pela propaganda eleitoral do partido e pelos discursos moderados do candidato, é apenas miragem. Nesse contexto, cobram-se do PT posições adotadas no Congresso Nacional, como as votações sobre mudanças no sistema previdenciário e na Lei de Responsabilidade Fiscal, por exemplo. A estratégia significa levantar dúvidas no eleitorado sobre a veracidade das mudanças anunciadas pelo PT.
Outra vertente dessa mesma estratégia é criticar eventuais alianças eleitorais que o partido de Lula vem tentando, tanto com o PL quanto com o PMDB, ou, pelo menos, a parte do PMDB insatisfeita com a possibilidade de uma aliança nacional com o PSDB. Faz parte desse movimento lembrar que o PT, que tanto criticou a aliança do presidente Fernando Henrique Cardoso com o PFL, não tem outros critérios para buscar aliados que não eleitorais. Tradução: o PT é um partido como outro qualquer.
Finalmente, outra linha de condução da campanha é destacar a falta de experiência administrativa de Lula. Turbulências na economia contribuem para reforçar o medo de parcela da população de um eventual governo do PT. A associação entre uma piora no cenário econômico com os riscos da eleição de um candidato despreparado funciona como um propulsor do medo e da insegurança. Por extensão, entram na roda os governos do PT.
No Rio de Janeiro, a governadora Benedita da Silva vive o drama de um jornalista da TV Globo ter sido torturado e morto por traficantes de drogas sem que sua polícia possa reagir. Em São Paulo, a prefeita Marta Suplicy ainda não conseguiu deixar sua administração visível aos olhos do eleitor. A impressão geral é que ela ainda não fez nada pela cidade. O que deveriam ser as vitrines do PT para eleger Lula tem se mostrado pontos vulneráveis na campanha eleitoral.
A estratégia do PSDB explora exatamente os pontos sobre os quais os eleitores se sentem inseguros para votar no PT. Não por acaso, são os mesmos sobre os quais o PT vem trabalhando desde o começo da campanha. Este ano, mais profissionalizado, o PT se preparou para eles. Os programas eleitorais do partido foram criados com a intenção de se tornar vacinas contra ataques desse tipo. Era uma forma de imunizar o eleitor contra o medo e a insegurança. Pela mostra da semana passada, quando o PSDB atribuiu ao PT a responsabilidade pela turbulência na economia, apertando o cerco sobre a candidatura Lula, as vacinas ainda não foram suficientes.
ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília





