Conto de Natal
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de dezembro de 1996
Eduardo Afonso 
Chovia a cântaros. Não obstante a pequena igreja estava repleta. De gente simples e devota. A despeito de a cidade não ter mais do que mil moradores. Acorreram de todos os recantos. Queriam assistir à Missa do Galo. Costume bom de muitos anos. Pois que o nascimento do Menino, à meia-noite de 24 de dezembro, era a mais bela e querida festa do ano. Deles, também.
Maria e José chegaram tarde. Moravam longe. Estavam encharcados, mas felizes. Grávida de nove meses, aguardava ansiosa a hora suspirada. Na branca torre repicaram alegres os sinos. E padre Simeão, pastor dedicado do piedoso rebanho, ia dar começo à celebração. Com seus vigorosos sessenta anos renovava, fazia três décadas, o mesmo ritual. Rodeado de coroinhas e anjos, à melodia do Noite Feliz, ia penetrar a igreja levando o Menino Jesus, talhado por ele próprio, artisticamente, em madeira de lei. José e a Virgem ao seu lado, vestida a caráter. Atrás os pastores e, imponentes, os três Reis Magos. O povo inteiro contemplando. As mães comovidas e as crianças sorridentes. Ia ser uma beleza, pouco importando a chuva lá fora.
Soou forte a campanhia. Era o sinal. Um grito, porém, no adro, seguido de correria, quebrou o êxtase da multidão. E a voz: Maria está dando à luz. Acudam! Rebuliço, corre-corre, expectativa. É um menino. Nasceu-nos um Menino!Padre Simeão aproximou-se. Tomou nos braços o nenem. Rechunchudo, róseo, lindo como um anjo. Elevou-o à contemplação de todos. E entoou a melodia: Noite feliz! Ó Senhor, Deus de amor, pobrezinho nasceu em Belém... E o cortejo caminhou para o altar. Ressoaram as palmas. Em ondas perfumosas elevou-se a fumarada de incenso. Padre Simeão falou: É o mais belo Natal de nossa humilde Belém. É o mais lindo Presépio do mundo. Presépio vivo. Coloquemos na mangedoura o filhinho de Maria, que se chamará Jesus. Rodeiem-no pastores, aproximem-se os Reis. Alegremo-nos todos na noite três vezes santa. - Nasceu-nos um Menino. Haverá mais rico presente? Finda a cerimônia Maria e José tomaram o menino e regressaram felizes à tosca choupana. O povo inteiro acompanhou-os cantando: Foi nesta noite venturosa, em que nasceu o salvador... A chuva caía a cântaros. Repicavam alegres os sinos. E lá das alturas desciam copiosas as dádivas inefáveis do Menino que, dois mil anos atrás, tinha vagido entre palhas na gruta de Belém.
- EDUARDO AFONSO é professor.


