Lançando adjetivos pouco lisongeiros – o que tem sido de seu costume – contra os que criticam o seu governo, o presidente Fernando Henrique Cardoso deita-se no berço esplêndido da auto-exaltação e defende para o próximo governo a continuidade dos fundamentos de sua política econômica. No mesmo embalo, o ministro Pedro Malan faz a apologia do sistema, dizendo que houve melhoria do poder de compra do salário mínimo, certamente referindo-se aos minguados R$ 28 do aumento que houve sobre o salário anterior.
Enquanto isso ocorre, os indicadores econômicos mostram que o Produto Interno Bruto caiu 0,73% no primeiro trimestre deste ano; que o consumo das famílias brasileiras recuou 1,32% em comparação com o mesmo período do ano passado (enquanto o consumo do governo cresceu 0,86%); que a renda do trabalhador das seis maiores regiões metropolitanas do Brasil vem encolhendo continuamente, nos últimos 16 meses; que o desemprego atingiu, no mês passado, a taxa de 7,7%, a maior desde maio de 2000. Houve também diminuição da produção industrial brasileira e aumento do risco-país, assunto do momento.
Com uma dívida interna de R$ 708 bilhões – que era de R$ 153 bilhões quando FHC assumiu – e uma dívida externa cujo montante verdadeiro nem se sabe ao certo, mas poderá ser de 200 a 400 bilhões de dólares, não será possível fazer grandes milagres, pelo pesado encargo do serviço desses débitos gigantescos, entenda-se os juros. Acrescente-se a essa herança nefasta a situação de violência que toma conta do País, já transformada em guerrilha; a onda crescente do desemprego, que leva à queda do consumo e à retração ainda maior da economia; e a descrença do povo nas instituições.
Não se sabe, então, porque o povo brasileiro haveria de desejar a continuidade dessa desastrada política. Quem a festeja é apenas o presidente FHC e a equipe econômica encastelada no poder. Porém, mais preocupante ainda do que a atual situação é saber que o próximo governo herdará este incômodo legado, e por mais competente que seja enfrentará sérios problemas de governabilidade.

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