CONTANDO LETRINHAS - Para descobrir o prazer da leitura
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Érika Gonçalves<BR> Reportagem Local 
A partir do momento mágico que a criança aprende a traduzir símbolos em palavras e ideias, se descortina o mundo da leitura. Com os livros é possível viajar por terras desconhecidas e conhecer seres inimagináveis. Mais tarde, a leitura ajudará a formar nossa cultura geral através de livros, revistas e jornais.
Para ser um momento de prazer e não uma obrigação, é preciso que a criança aprenda a gostar de ler desde cedo, incentivada pelas histórias contadas pelos pais na hora de dormir. Mais tarde, os professores serão os responsáveis por fortalecer o hábito, por meio da indicação de livros adequados para cada idade e aulas criativas.
A importância do incentivo de pais e professores é destacada pelo membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) Moacyr Scliar. A história dele é um exemplo da importância do modelo dentro de casa para despertar o hábito de ler. Médico por formação e escritor pela paixão que vários autores lhe despertaram, Scliar ressalta que quem surgiu primeiro foi o leitor. ''Me tornei escritor porque gostava de ler e gostava de ler porque fui estimulado por uma mãe que foi professora primária e uma grande leitora'', salienta.
Sempre se fala da importância de comprar livros e deixar à disposição das crianças. Somente isso basta?
Tem uma coisa prévia que é muito importante e é parte do processo. Esse processo começa com os pais contando histórias, sobretudo na hora clássica que é quando a criança vai dormir. Contar histórias é despertar a criança para a ficção porque toda ficção nasce exatamente da narrativa. Num segundo momento, se trata de ler para a criança e quando o pai ou a mãe leem a criança associa o objeto livro e seu conteúdo à imagem protetora do pai ou da mãe. Isso vai ficar embutido no inconsciente da criança pelo resto da vida.
Quando isso não acontece, quando os pais não leem para os filhos, não os levam para feiras de livros, bienais, quando eles próprios não leem, nós temos um sério obstáculo que foi recentemente comprovado por uma enquete feita pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Entre as pessoas que não leem, quase 70% nunca viram os pais lendo, ou seja, não tiveram exemplo.
Depois que a criança vai para a escola começam as leituras curriculares. Parte dos alunos nunca teve contato com livros e os professores exigem a leitura de clássicos. Esse é o caminho ou o professor poderia fazer uma lista e deixar o estudante escolher?
Clássicos são livros importantes, mas, de maneira geral, são livros escritos há mais de um século, que se referem a épocas que não são a dos jovens, a lugares que eles não frequentaram e, geralmente, escritos em um idioma que, por ser do passado, é difícil de ser compreendido. Iniciar o jovem na literatura com os clássicos é um equívoco. Não quer dizer que os clássicos não devam ser introduzidos na sala de aula, mas a gente tem que fazer de uma maneira habilidosa, criativa e inteligente.
Além dos clássicos, a opção deve ser muito grande e a escola deve oportunizar também a interação. Dar ao jovem a oportunidade que ele adapte o texto a uma peça teatral, que ele crie a sua própria versão do texto. Enfim, que ele desmistifique, através da sua própria atuação, o texto literário.
Qual sua avaliação das políticas públicas para a leitura?
Acho que melhorou muito. Hoje em dia a população analfabeta é de 10%. Na época de Machado de Assis era de 80%. O País avançou muitíssimo. É o primeiro e necessário passo para a leitura. E o poder público, através do programa nacional de bibliotecas escolares, está aparelhando muitas escolas, mandando coleções de livros. Temos também a mudança de mentalidade nas escolas com os professores se dando conta que eles têm que ser mais criativos no ensino da literatura.
Ler é importante. É uma fonte de prazer, emoções e conhecimento. É uma coisa que tem que ser incorporada. Não somos leitores, aprendemos a ser. A pergunta básica que um professor deveria fazer ao aluno não é o que o autor quis dizer, que é comumente usada em testes e no vestibular. A primeira pergunta é: o que o aluno sentiu lendo o livro? Como ele ressoou, que tipos de emoções despertou? Se ele disser que não sentiu nada, qualquer discussão é inútil porque no processo de crescimento via leitura o primeiro passo é no plano emocional, depois que a pessoa avança o conhecimento.
E o encontro do leitor com os autores? Quanto isso é importante para incentivar o hábito da leitura?
Acho que é extremamente importante, sempre que posso, eu vou. Acho que em um país como o Brasil, que está formando seu público leitor, o escritor, além da tarefa de criar texto literário, tem a tarefa de educador, de se aproximar do público com o objetivo de mostrar que atrás do livro não é um ET que está. É um ser humano, que pode discutir com ele, trocar ideias e assim diminuir o grau de intimidação que o livro sempre causa, sobretudo entre as pessoas de origem mais humilde.


