O governo avalia que o aumento de consumo nos últimos meses não está gerando inflação e considera a possibilidade de manter os estímulos ao setor da construção civil - comentou ontem o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. Uma visão lúcida do ministro, defendendo uma política acertada que afasta a recessão. Até porque o fator que gera inflação, no contexto em que se refere (a inflação pela demanda agregada de bens de consumo) é a espiral que decorre da conjugação de vários fatores e não apenas o consumo, na sua equação linear.

O estímulo ao consumo é, a princípio, em todos os sentidos benéfico por várias razões: a) promove o giro do dinheiro no mercado, exigenando a economia, b) proporciona a oportunidade de acesso de bens aos segmentos excluídos desse poder de consumo, c) aumenta a capacidade de produção nas indústrias, que abrem mais postos de trabalho. Quanto mais renda, mais consumo, formando um saudável círculo viciosos de produção e consumo.

Historicamente, quem atrapalha o consumo são os governos e o seu excessivo medo da inflação. Para evitar desgastes políticos procuram manter um falso equilíbrio que nada mais é do que o desestímulo ao consumo através das taxas de juros que inibem a demanda do crédito direto ao cosumidor.

Aliás, hoje tem reunião do Conselho de Política Monetária do Banco Central, o Copom, colegiado burocrático que determina as taxas dos juros básicos que, nem sempre, felizmente, transparcem nos juros dos crediários. Nem para aumento, nem para redução. Apenas porque essas taxas expressam o temor ou confiança do governo diante de um cenário iminente, que pode ser de estabilidade ou de inflação.

Sem arriscar a decisão do Copom, hoje, para definir a nova taxa Selic, atualmente em 8,75% ao ano, o ministro Bernardo concorda com a atuação preventivamente do Banco Central, mas não ao ritmo ''das especulações do mercado''.

Entre correr o risco de despertar a inflação - dentro de parâmetros contornáveis - e mergulhar a economia numa recessão, o governo prefere enfrentar a primeira hipótese. Até porque a recessão não interessa a ninguém, tampouco ao governo em ano de eleição. E porque tem impacto direto nas metas da receita com tributação, cuja arrecadação está diretamente relacionada com a densidade da atividade comercial.

É erro das burocracias monetárias controlar a inflação desaquecendo a economia com altas taxas de juro, castrando, assim, o poder de compra. Os governos cometeram essa heresia técnica para não mexer na política fiscal e não ter que sair da zona de conforto das gastanças.

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