Consumismo é democracia - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de novembro de 1997
Walmor Maccarini 
Precisamos, no Brasil, estimular não a poupança, mas a gastança. O governo incorre em erro ao desestimular o consumo. E o tem feito mantendo alto o juro do dinheiro. E agora, com a desculpa do crash das bolsas, o faz com mais euforia ainda, porque ao tempo em que freia o consumo retém aqui as aplicações dos especuladores externos.
Consumismo é democracia; ou, o direito que todos têm aos bens do mercado. O que é para uns tem que ser para todos. Quanto mais consumimos, mais a inflação baixa, porque aumentando a procura aumenta a oferta, pelo estímulo à produção, e com mais demanda a tecnologia se aperfeiçoa, resultando em produtos melhores e mais competitivos e com menor custo. É a erupção da cadeia desenvolvimentista. As nações ricas, hoje, são nações consumidoras. Consomem muito não porque são ricas, mas ficaram ricas porque começaram a produzir mais e consumir mais.
Governo e economistas, e até alguns empresários, no Brasil, cometem uma estranha incoerência: são adeptos da implantação de indústrias, o poder público dá a elas grandes incentivos, Estados e municípios as disputam com avidez e levantam a bandeira de que geram empregos, mas depois não querem que os cidadãos consumam o que elas irão produzir. Uma indústria se implanta não para gerar empregos (que vêm como consequência) mas para produzir e vender. O governo é o primeiro a propagandear as conquistas representadas pela chegada dos investimentos produtivos, mas, incoerentemente, faz tudo para desestimular o consumo. Ora, se é para não haver consumo, então por que essa busca para atrair investidores? Por que correr tanto atrás de novas fontes de produção?! Se é só para elas gerarem empregos, é bom lembrar que empregos não se mantêm se a fábrica fecha pela ausência de consumidores.
Em viagens a países asiáticos, integrando missões de governantes e empresários, tive oportunidade de conversar com homens de negócios, e numa grande loja de departamentos, no Japão, perguntei ao gerente em quanto tempo todo aquele enorme e variado estoque descia das gôndolas e prateleiras e passava pelo funil dos caixas. Ele me respondeu: em duas semanas. Consultei empresários brasileiros presentes: no Brasil o fluxo não era assim veloz. O que acontecia lá? Consumismo. Então, cai por terra essa visão caolha de que consumismo é inflacionário. Não é à toa que inflação convive tão bem em países subdesenvolvidos.
Os sábios da área econômica do altiplano brasiliense incorrem em erro quando, agora, no afã de salvaguardar a presença dos dólares do mercado especulativo, desdenham para os riscos internos da quebradeira, do desemprego, mesmo conscientes de que haverá recessão no uso do dinheiro e queda nas vendas do comércio, por extensão da indústria e do fornecedor primário da matéria-prima. Resultantes de mais impostos que agora criam, da alta dos juros e dos combustíveis, da alta do imposto de renda do assalariado que paga na fonte e do gás que coze o nosso arroz-com-feijão. Quem tem dívidas em banco (e é a maioria), e quem precisa fazer dívidas para tocar o seu negócio, se ferra.
Se amanhã pintar novo crash nessa Las Vegas mundial que se chama feira do dinheiro, vamos ver como farão o Malan, o Kandir e o Gustavo Franco! Porque o cinto já está afivelado no último furo.
Tudo está certinho, dentro da meta do governo que é salvar o Real e segurar aqui os dólares das velhinhas poupadoras. Se é que isto garante o Real e segura as velhinhas, e se o fim é este, então as medidas agora tomadas não poderiam ser outras. Mas vale a pena tão alto preço? Argumenta-se que isto vai beneficiar as indústrias exportadoras. Tudo bem, mas vamos ver com que dinheiro elas tocarão os seus negócios e produzirão na quantidade e qualidade do exigente consumidor internacional. A grande maioria das empresas nem depende do mercado externo. E o dinheiro que anunciam, para financiar as pequenas empresas, veremos se vem e se será fácil ou emperrado pela burocracia.
FHC esteve sempre mais obcecado em cuidar do remédio (o seu Real) do que do paciente. Moeda boa, economia capenga.
Nos ocorre a lembrança das reformas. Estas, se houvessem sido feitas antes, nos teriam poupado desta garrafada que agora nos enfiam goela abaixo. As oposições, eufóricas com o quanto pior melhor desta crise, que se lembrem do quanto dificultaram o andamento dos projetos das reformas, no Congresso. E não só elas.
O governo, na crista do que qualificou de emergência, agiu rápido. Foi eficiente quanto à forma. Mas não há no Brasil um só analista, um só empresário, um só cidadão seguro de que as medidas do governo são acertadas.
Já diminuir o custo da máquina burocrática, reformar leis velhas e introduzir novas, isto o governo teima, e teima, em não fazer!
Quem diz que estes remédios são amargos mas necessários são só os homens do governo e estrategistas do universo monetário internacional. Vamos ver o que dizem aqueles que seguram o Brasil, que são os que tocam empresas e serviços e têm que manter empregos e os salários de seus empregados!


