Consumidor é ainda o melhor fiscal
A queda de 10% no consumo de leite longa vida demonstra que o consumidor é ainda o grande fiscal contra as imoralidades, e que para uma empresa fraudulenta não há punição maior do que a que atinge o caixa. As denúncias não são vãs como muitos supõem, e o caso do leite é um exemplo. Ninguém quer consumir veneno, e de nada adiantou, no início, órgãos da saúde pública e o próprio ministro da Agricultura e Pecuária declararem que o leite com soda cáustica e água oxigenada não ofereciam risco à saúde humana. Depois, face à intensa reação popular e à avalanche de protestos, essa precipitada e irresponsável defesa do leite contaminado cessou.
Apenas denúncias não resolvem se o povo não assumir a linha de frente. Deixar de comprar e de consumir é a melhor resposta a barbaridades como a cometida com o leite, e se assim se fizer com tudo o que não serve, a seriedade e a responsabilidade se instalarão. Os abusos estão presentes em toda a parte, e se eles existem é porque, de certa forma, os cidadãos os permitem, porque não reagem e vão tolerando-os. O caso dos juros extorsivos, por exemplo, impera soberano porque a clientela não questiona. No caso dos bancos, bastaria não ter conta - porque é possível sobreviver sem ela - e não fazer compra a prazo no comércio se o indicativo for de juro exorbitante nas prestações. Pesquisar, questionar e exigir, este o caminho. Quando todas as pessoas fizerem isto, as coisas mudarão.
As exorbitâncias e a corrupção, presentes na atividade pública e também na privada, acontecem porque quase não há punição, nem de parte da lei e nem dos cidadãos. Estes, como no episódio do leite, demonstram que têm grande poder, e nem sequer o imaginam. Porque o povo é o freguês e o que detém o poder econômico - entenda-se o dinheiro - porque é o que compra e consome. E se resolve diminuir ou cessar o consumo ou uso de um produto, porque deteriorado ou de péssima qualidade, pode quebrar a empresa produtora ou vendedora.
Nem a prisão, nem a execração pública, são capazes de tanto dano quanto a diminuição da entrada de dinheiro, em qualquer negócio. Quando se diz que a parte do corpo que mais dói no ser humano é o bolso, fala-se uma verdade até hoje não contestada. Os 10% a menos no consumo de leite representam 10% a menos de receita, e isto pesa em qualquer balanço. Punir pela obstrução da via onde entra o dinheiro é o segredo contra os maus empresários e os maus negociantes. E também contra os maus políticos, porque eles desejam ser eleitos não por espírito público - talvez se salve um em cada cem - mas para usufruir dos polpudos ganhos. Quando o cliente, o consumidor, o usuário de serviços, o eleitor, descobrirem a eficácia de sua reação punidora, verão quanto poder têm em mãos e do que esse poder é capaz.





