Construção da paz, um ideal!
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de novembro de 2001
Fernando Marrey 
A busca de uma efetiva democracia mundial pode partir de várias ângulos de reflexão, não unicamente como forma de solucionar as guerras, mas também de suma importância solver a pobreza mundial. As integrações das cidades e de suas redes de Estados nacionais às regiões e às instituições internacionais na busca de caminhos alternativos à globalização neoliberal, talvez permitam que em futuro não tão longínquo também possamos avançar na consolidação de um governo democrático mundial, mais do que nunca necessário após os graves acontecimentos de 11 de setembro.
A ONU, entretanto, tem outros departamentos com a (FAO) Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, de suma importância para o mundo, mas necessário se faz fornecer mais poder de atuação internacional. O que deve preponderar à OTAN bombardeando países? Isolando contingente brutal de pessoas como no Afeganistão em 2001, ou a FAO, que deveria ser chamada de Instituição Supranacional de Governança Mundial para Agricultura e Alimentação? O que prevalece é a força bélica totalitária, não a força humanitária que salva vidas.
Os bombardeios militares da coalizão anglo-americana detêm o poder de gerar milhares de refugiados, nas fronteiras do Afeganistão, são os danos colaterais aceitos pelo mundo dito civilizado, como podem gerar sete milhões de refugiados e chamar essa calamidade humanitária de mero dano colateral admissível. O povo no refúgio necessita comer, alimentar-se, a FAO deveria ter o poder de proporcionar alimentos para todos os campos de refugiados que estão se formando, os anglo-americanos devem arcar com o ônus, muito mais barato, que o valor de um milésimo gasto pelas bombas despejadas em hospitais, depósitos alimentares da cruz vermelha, civis inocentes.
É muito fácil refletir a cerca dos refugiados quando estamos do outro lado do mundo, temos o que comer, o que beber, defecamos em privadas e limpamos com papel higiênico, dormimos em camas confortáveis, um vidão perto de pessoas onde o inferno é sobreviver em condições subumanas, portanto de urgente intervenção humanitária, mesmo contrariando ordens militares, se é que existem. O drama do refugiado pode ser vislumbrado nas seguintes palavras: ''Desumana é a determinação do homem pelo chão da pátria e pelo sangue, e não menos desumana é a vida insegura do homem a quem são retiradas as bases terrestres de sua existência''.
Uma governança mundial democrática deve deter o poder de evitar esses despautérios humanos, mas uma vez consolidada a atrocidade que conduz ao flagelo, as ações de salvamento e resgate das mínimas condições de sobrevivência com dignidade devem ser a lei maior planetária, independente de contrariar o interesse egoísta anárquico de grupo de Estados beligerantes. Imagine você, leitor, passando por condições de necessidade básica em um período de sua vida, reflita tentando se colocar na pele dos desenganados, pessoas que em nada contribuíram para esta feroz vingança. Mobilizações populares por todo o planeta pedindo paz e renda no terceiro mundo é um imperativo. Crianças devem ser preservadas, elas viveram pouco para morrer de fome, de doença geradas pelo conflito. Humanizemo-nos! Salvemos o maior número de vidas possível. O maior bem é a vida, vivida de forma digna. A construção da paz, entretanto, só se concretizará com muito amor no coração. Busquemo-la!
- FERNANDO MARREY é advogado em São Paulo
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