Construção civil X desemprego
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de julho de 1997
Dante Guazzi 
O desemprego está entre as maiores dores que o ser humano pode sentir. Diariamente podemos ver no Paraná e em todas as cidades brasileiras filas intermináveis de desempregados ou subempregados em busca de oportunidades, para não dizer da própria subsistência da família. Publicações especializadas atestam que o desemprego é a terceira maior dor que o homem pode sofrer. Este sentimento, afirmam os especialistas, chega a ser comparado inclusive à perda de um filho ou de um outro ente querido.
Nosso país, que tem clima e condições de solo favoráveis e que oferece a possibilidade de até duas safras agrícolas por ano, se vê nessa situação de caos urbano, onde pais de família têm de contar com a sorte para entrar no mercado formal de trabalho. Por mais que os governos, em todas as suas esferas, busquem alternativas, sempre vamos nos deparar com um problema tão grande quanto o desemprego, que é a falta de qualificação profissional.
Tudo isso se agrava ainda mais se considerarmos que o Brasil registrou um aumento populacional extraordinário. Em 1960, a mão-de-obra ativa do país somava 20 milhões de habitantes. Atualmente atingimos a marca de 82 milhões - uma expansão populacional idêntica à americana, sem que nosso mercado de trabalho e nossa força produtiva tivessem registrado a mesma capacidade de gerar empregos de forma tão expressiva.
O lado mágico e merecedor de elogios do Plano Real foi conter a inflação para índices próximos a zero, colocando o país na rota dos investimentos internacionais. A dicotomia é que este mesmo plano provoca recessão e o consequente desemprego de milhares de trabalhadores. Este enorme custo social poderia ser atenuado com medidas eficazes, que considerassem as características de nossa economia, ou seja, é preciso fomentar um setor que tenha capacidade de abrir mercado de trabalho para grande número de trabalhadores.
É exatamente neste cenário que venho defendendo fomento à atividade da construção civil. Um setor avançado em nosso país e que está intrinsecamente ligado à geração de novos postos de trabalho. Tenho conversado com diversos empresários - de todos os setores - e existe verdadeiro consenso sobre a viabilidade de fomento e esta atividade, como forma, inclusive emergencial, de conter desemprego.
Não muito tempo atrás Londrina viveu um boom na construção civil, registrando alto desenvolvimento em diversas áreas. Na época, meados dos anos 80, o setor da construção empregava mais de 10 mil trabalhadores. Eram milhares de serventes de pedreiros, carpinteiros, azulejistas, arquitetos, engenheiros, contadores, enfim.
Lembro-me também que esta foi uma época de muita vitalidade no comércio de Londrina. Nosso município foi inclusive notícia nacional, apontado como a cidade que registrava o maior índice de crescimento vertical. Não há um só empresário que não guarde boas lembranças desse tempo recente. Esse vigor econômico foi responsável por inúmeros benefícios sociais. Além da geração de postos de trabalho tivemos a construção de novas moradias e a geração de impostos. São exemplos do que a construção civil pode movimentar.
Mas, lamentavelmente, assistimos no Brasil ao completo abandono deste setor tão importante. Ausência de financiamentos a custos compatíveis com a atividade, obras iniciadas e inacabadas, construções públicas sem a relevância que deveriam merecer, enfim, o setor passa por momentos muito difíceis. Não são raras as empresas que estão fechando as suas portas.
Os programas de geração de empregos que vêm sendo incentivados pelos governos municipais e estaduais consideram, prioritariamente, as indústrias automobilísticas e eletrônicas. São setores que têm merecido o maior desempenho das autoridades públicas, instituições financeiras e frequentemente aparecem nos noticiários dos jornais, com grande destaque.
Não estou indo contra esta onda de desenvolvimento, muito pelo contrário. Como cidadão responsável, tenho inclusive incorporado este discurso. Minha única discordância dá-se pelo fato de que trazer investimentos representa ônus para os órgãos públicos, que têm de dispor de alguns benefícios para, muitas vezes, gerar menos postos de serviços do que o necessário e, ainda assim, em prazo de anos.
Acontece que todas estas indústrias, até por pertencerem a holdings estrangeiras ou a grupos nacionais que têm de respeitar um cronograma de investimentos de acordo com orientações superiores, exigem financiamentos subsidiados, isenções de impostos, prazos de pagamento a perder de vista, enfim inúmeros privilégios. Se menos da metade disso fosse aplicado no setor da construção civil ocorreria uma verdadeira revolução.
Refiro-me especificamente a linhas modernas de financiamento e investimento em obras públicas - para beneficiar a população mais pobre - com o objetivo de criar condições ideais para acolher grande parte da mão-de-obra desempregada. Tudo isto ocorreria a curtíssimo espaço de tempo beneficiando duplamente quem mais precisa, caracterizando uma verdadeira justiça social, pois a construção civil é capaz de responder imediatamente à contratação de mão-de-obra.
É necessário decisão política. Conclamo os sindicatos a se envolverem nessa revolução, a partir do esclarecimento de que é possível gerar desenvolvimento com justiça social, a curtíssimo prazo. Ao mesmo tempo, que os municípios e Estados continuem com seus programas de atração de investimentos. Conciliar interesses, criando oportunidades claras para todos, em busca de uma economia mais forte. É este o Brasil em que acredito.


