O ano de 2001, que inaugurou um século cheio de promessas, chega a seu final com triste marca. Inexorável e infelizmente, entra para a história como o ano em que a humanidade sofreu um dos mais atrozes atentados de todos os tempos. A gravidade da agressão que sofreram em 11 de setembro, contudo, não fez com que os norte-americanos esmorecessem. Independentemente da retração econômica que enfrentaram no último trimestre, adotam em todas as frentes (governamental, empresarial, comunitária e no voluntariado) medidas destinadas à recuperação do nível de atividades. Resultado: todas as estimativas indicam que os Estados Unidos estarão crescendo de forma considerável já a partir do segundo trimestre de 2002.
De fato, quem costuma navegar nos sites dos jornais ou assistir, nas televisões por assinatura, aos programas noticiosos e de entrevistas dos Estados Unidos, certamente notou depois do fatídico 11 de setembro, quando ocorreram os atentados terroristas mudança emblemática no discurso político de jornalistas, empresários, senadores, deputados, prefeitos, artistas, atletas e cidadãos em geral. As críticas, sátiras, piadinhas e insinuações contra a legitimidade da eleição do presidente George W. Bush ou sobre os erros de sua administração sumiram instantaneamente da mídia norte-americana. Agora, prevalece a figura institucional e a autoridade do presidente da República. No Congresso, parece haver um só partido: a bandeira nacional. Nas empresas, empresários e trabalhadores esquecem eventuais divergências e trabalham dobrado.
A nação norte-americana mobilizou-se, com muita sinergia e coesão, para superar os traumas da agressão. Todas as forças somaram-se para devolver a normalidade ao país. A tarefa não está sendo fácil, mesmo para uma nação que experimentou, nos últimos 10 anos, fulminante crescimento e prosperidade, com uma situação de quase pleno emprego e que ostenta o estratosférico PIB de US$ 9,3 trilhões. Por isso, os norte-americanos estabeleceram um pacto espontâneo, não declarado, transformando a solidariedade em norma social e o trabalho em resposta à indignação.
No Brasil, segundo as estatísticas oficiais do próprio Ministério da Justiça, sob os escombros da imensa dívida social e da combalida estrutura da segurança pública são assassinadas cerca de 60 mil pessoas por ano. É como se 10 World Trade Centers desabassem todos os anos sobre nossas cabeças. No plano econômico, os impactos das incertezas externas e internas, depreciação cambial, elevação de juros e o apagão impactaram o nível de atividades, reduzindo a cerca de 1,5% as perspectivas de crescimento em 2001. Algo muito próximo da atual taxa de expansão demográfica vegetativa. Ou seja, em termos reais, não deverá haver avanço econômico. A dívida pública interna no nível de 52,5% do PIB pasmem é uma ameaça efetiva de médio e longo prazos.
Estariam os brasileiros unidos e coesos, como os norte-americanos, para enfrentar suas adversidades? poderia perguntar um inocente estrangeiro. Então, ao assistir às brigas e discussões de baixo nível e alta agressividade entre parlamentares, à precipitação inadequada da campanha eleitoral de 2002, quando ainda há muito o que fazer no atual governo, e à ausência de um mínimo de tolerância e entendimento entre homens públicos, políticos e partidos, o estupefato estrangeiro não entenderia nada...
Estupefatos estão, efetivamente, os cidadãos brasileiros, ao assistirem diariamente às cenas tragicômicas e os impunes descalabros que se produzem no ambiente político/público. Indignação, porém, não é suficiente. É necessário ter postura pró-ativa diante da realidade. Nesse sentido, muito pode e deve ser feito, a começar no ambiente das empresas e no universo dos setores produtivos, nos quais se concentram as forças motrizes da Nação. É preciso trabalhar e produzir mais para vencer os problemas econômicos e buscar melhores perspectivas sociais para o futuro. Se não há bom senso e um mínimo de coesão no plano político, que prevaleça a sinergia no setor empresarial, com o entendimento entre fornecedores, clientes e parceiros comerciais.
Nesse sentido, torna-se fundamental o entendimento entre trabalhadores e empresários, as duas verdadeiras forças que movem um país. No âmbito das negociações trabalhistas, sindicatos patronais e de trabalhadores devem buscar alternativas no bom senso. A retórica deve dar lugar ao diálogo argumentado e fundamentado, ao invés da disputa por vitórias de uma ou outra parte, buscando-se uma equação em que todos ganhem.
Felizmente, o Brasil não tem problemas com o terrorismo internacional. Entretanto, sofre e muito com a violência que produz internamente e com os percalços de sua própria economia. Por isso, como ocorre nos Estados Unidos, a mobilização da nação brasileira, acima de governos, partidos e políticos, não precisaria ser norteada por leis, tratados ou normas. Bastaria a espontânea consciência de que as soluções dependem muito de cada um e da união de todos em torno de uma verdadeira causa de redenção nacional. Não adianta apenas lamentar, numa constrangedora analogia, as 60 mil vítimas anuais da violência, que soam como um desabamento moral das torres do Brasil.


- SILVIO ROBERTO ISOLA é empresário gráfico e presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas no Estado de São Paulo (Sindigraf)

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