Considerações pós-eleitorais - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de outubro de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
A eleição para a presidência da República terminou como se previa: ganhou em primeiro turno, batendo o recorde de números de votos absolutos de nossa história eleitoral, Fernando Henrique Cardoso, o primeiro presidente reeleito do Brasil. Seu governo, ancorado no Plano Real, que permitiu a estabilização da economia com moeda forte, e outras realizações, valeu-lhe o voto do eleitorado. Sem dúvida um voto de confiança, um julgamento alicerçado na competência para dirigir os destinos do País. Destinos estes, diga-se de passagem, que dependerão dos remédios amargos que precisarão ser ministrados por conta da crise financeira internacional.
E essa conjuntura adversa deverá tornar o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso mais difícil, sendo que sua popularidade deverá oscilar sob o efeito das medidas econômicas que necessitarão ser tomadas. Isto, naturalmente, proporcionará à oposição munição para críticas mais contundentes. Entretanto, o presidente já conta com 12 governadores eleitos por partidos aliados a seu governo, sendo que em mais oito estados onde haverá segundo turno a disputa também se dá em torno de siglas ligadas a Fernando Henrique. Qualquer uma que ganhe será, portanto, de um partido governista.
No caso das bancadas da Câmara dos Deputados, não haverá alterações significativas. A base aliada do presidente sofrerá uma pequena redução e a oposição conseguirá um pequeno aumento. No Senado, Fernando Henrique mantém a maioria.
Quanto ao PT, que perdeu pela terceira vez a eleição presidencial: o partido promete oposição cerrada a Fernando Henrique pela voz de Luiz Inácio Lula da Silva. No seu revanchismo rancoroso, este chegou a declarar que a eleição foi ilegítima, argumento difícil de ser aceito na medida em que o presidente se reelegeu dentro das regras democráticas. Também causa estranheza o pensamento do candidato derrotado, expresso na frase de que o povo perdeu ao reeleger Fernando Henrique.
Esta manifestação extremamente autoritária só pode ser compreendida à luz da mágoa profunda daquele que não passou pela terceira vez no vestibular da democracia, e que convidado pelo candidato vitorioso para dialogar recusou qualquer convivência civilizada, prometendo ser implacável. A ameaça não ficou devidamente esclarecida, mas provavelmente a oposição usará os mesmos métodos que vem usando. Isso significa que Lula e seus seguidores vão continuar a dificultar no Congresso as reformas necessárias ao País, vão açular os chamados sem terra para que estes recrudesçam nas invasões de terras e saques, e tentarão através de todos os meios voltar a opinião pública nacional e internacional contra o presidente da República.
No Paraná também aconteceu o que era previsível: a reeleição do governador Jaime Lerner. Fica claro neste caso, que foi o eleitor de resultados que resolveu reconduzir o governador, o qual foi escolhido por conta do que realizou na sua administração, muito próxima por causa da reeleição. Mesmo assim, como aconteceu no País de modo geral, os votos nulos, brancos e abstenções somados, ultrapassaram a votação dada ao governador Jaime Lerner. Este exemplo, que se soma a outros no Brasil, significa que se de direito temos o voto obrigatório, de fato já existe o voto facultativo.
No Paraná, onde o presidente Fernando Henrique obteve uma de suas mais estrondosas votações, o principal opositor derrotado do governador Jaime Lerner, o senador Roberto Requião, teve como um dos aspectos desfavoráveis de sua campanha a presença do aliado e candidato à Presidência, Lula da Silva e de seu vice Brizola. Mesmo tendo o senador se utilizado do suprapartidarismo, que liberava correligionários para apoiar Fernando Henrique Cardoso, não conseguiu se desvencilhar da forte presença petista, que conforme as urnas indicaram, não é nada forte no Paraná.
Álvaro Dias se elegeu senador tranquilamente, mas também foi vencido pelos votos em banco, nulos e abstenções somados. O senador eleito parece almejar um ministério e, futuramente, o governo do Estado, que muitos pensavam que devia ter disputado já nesta eleição. Com relação a ministério, Álvaro com certeza jamais se esquece do que lhe foi oferecido pelo então presidente Itamar Franco: o Ministério dos Remédios, a ser criado especialmente para o político paranaense, e que este evidentemente recusou. Será que agora, através de acordos acertados, terá mais sorte?
Mas o Big-Bang político da eleição no cenário nacional e paranaense foi mesmo Rafael Greca de Macedo, eleito deputado federal pelo PFL com 226.654 votos. Um recorde na política do Paraná, da qual ele avulta como um dos mais preparados. Aliás, Greca se destaca como um dos políticos mais cultos do País e é dotado de um carisma muito especial, capaz de empolgar platéias e, ao mesmo tempo, de seduzir massas populares. Com a eleição de Greca, foi de fato dada a partida para a próxima disputa ao governo do Estado, na qual ele já aparece como fortíssimo candidato.
E assim vamos nós eleitores no lento processo da democracia, aprendendo a selecionar nossos representantes.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina


