Conservar não é apenas uma mudança de rótulos
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de junho de 2004
Clóvis Schrappe Borges 
Para se conservar a natureza, garantindo a perpetuação de paisagens naturais com sua fauna e flora originais, uma sociedade precisa de valores relacionados à proteção do meio ambiente incorporados a sua cultura. O único instrumento para isso é informação constante e de boa qualidade.
Não a informação superficial, tendenciosa, muitas vezes distorcida e atrelada a interesses políticos e econômicos e que, por isso, acabam mantendo procedimentos equivocados e desastrosos para o nosso futuro. Mas sim um conhecimento real, com embasamento técnico, capaz de colocar em prática o que chamamos de conservação da natureza.
Tomemos como exemplo a falta de parâmetros para se medir o que é adequado ou não para uma agenda de desenvolvimento que incorpore a conservação da natureza. Os ambientalistas são injustamente acusados de bloquear o desenvolvimento do país, seja por quererem regulamentar o avanço das fronteiras agrícolas, seja por combaterem a derrubada de mata nativa para plantio de espécies exóticas como o pinus. Nosso papel e interesse é que as duas coisas caminhem juntas: desenvolvimento e conservação.
Só que o que vemos acontecer é um descaso total com as questões ambientais, como se elas fossem menos importantes que as econômicas. Vemos instâncias de governo cada vez menos estruturadas para dar atendimento às demandas crescentes na área ambiental. A classe política, em geral antagônica a princípios consistentes na área da conservação, impede historicamente a melhor condição de trabalho dos organismos governamentais responsáveis pelo setor. Pouco se tem feito, na verdade, por uma política ambiental consistente e lógica no Brasil.
Sem valores claros para respeitar e contando com a conivência de setores interessados em resultados econômicos maiores do que os que a natureza poderia oferecer, o ser humano tem a tendência natural de inclinar-se a um comportamento que culmina com a degradação completa do meio ambiente. Aquecimento global, catástrofes climáticas, solos exauridos e espécies extintas são apenas algumas das consequências mais evidentes desse descaso.
Ficam no ar algumas perguntas: quanto se consegue efetivamente evitar o desmatamento descontrolado no Paraná, sem ''perdoar'' as multas que deveriam ser aplicadas a quem derruba florestas ilegalmente? O que se está fazendo para salvar o que resta de campos naturais e florestas com araucárias, já que todos os olhos parecem voltados apenas para a expansão da soja e do pinus? Será que nos tornamos predadores irreparáveis daquilo que manterá a qualidade da vida neste planeta nos próximos séculos?
CLÓVIS SCHRAPPE BORGES é diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS)
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