Consenso e eleição - Rubem Azevedo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de setembro de 1998
Rubem Azevedo 
Os candidatos que concorrem contra a reeleição do atual presidente da República, em outubro próximo, suspeitam da existência de um complô da mídia eletrônica & empresas de pesquisas eleitorais para forçar a massa dos eleitores de baixa consciência política - a maioria do povo brasileiro - a eleger Fernando Henrique Cardoso, se possível no primeiro escrutínio.
O Dr. Goebbels, num país cuja população tinha escolaridade superior à dos brasileiros, descobriu o truque do sucesso na propaganda política: repetir, sem parar, o que é preciso meter na cabeça das pessoas. Não importa que seja mentira. Repetindo-se muito, seja o que for, até a mentira pode passar por verdade.
O método funciona. Lembram-se das eleições de 1989? Nesse ano, segundo o economista Paulo Nogueira Baptista Júnior, montou-se no País uma operação milionária, para nos venderem as supostas excelências da nova ordem econômica mundial, da Sra. Thatcher e do Sr. Reagan. Quem o fez, em termos latino-americanos, foi o presidente Bush, dos EUA, com sua iniciativa para as Américas.
Sob patrocínio do Institute for International Economics (IIE), o FMI, o Banco Mundial e o BID reuniram-se em Washington para avaliar as reformas econômicas em curso na América Latina. Estiveram presentes autoridades dos EUA e representantes dos países latino-americanos. As conclusões da reunião constituem o que se chama de Consenso de Washington. Do ideário econômico então aprovado já constava trabalho de cuja elaboração participara o brasileiro Mário Henrique Simonsen.
Sem tratar de nenhum problema social, pedia-se a abertura dos comércios nacionais ao exterior, a estabilidade monetária, a privatização das estatais, a desregulamentação econômica e a diminuição do Estado na economia. Para Nogueira Baptista, voltava-se ao passado do laissez faire. O Brasil teria de revalorizar a agricultura para exportação, o que - paradoxalmente - até a Fiesp aceitou.
Tudo isso parecia o máximo em modernidade. Políticos, economistas e empresários empolgaram-se com os editoriais pouco inocentes dos jornalões, e o País, com Fernando Collor e FHC, abraçou o neoliberalismo do Consenso de Washington, atrelando-se à economia dos EUA. Quem se opunha a tanto era considerado dinossauro.
Esvaziou-se a Petrobras e venderam-se estatais importantes no mercado financeiro, como a Vale e a Telebrás. Para o economista Jorge Alberto Freitas Ribeiro, o País perdeu bilhões de dólares investidos em tecnologia e pagos em impostos. Devido aos juros altos, para defender o real, cresceu nossa dívida pública e pouco sobrou para investir em políticas sociais e de emprego. São os frutos do Consenso de Washington, no Brasil.
Nossa economia fragilizou-se. Qualquer abalo especulativo nas Bolsas apavora o País. FHC pediu o apoio mundial dos ricos, contra a especulação. Por que o pedido de socorro, se diziam que estávamos no rumo econômico certo?
O Consenso quer que façamos tudo o que os outros países fizeram, antes de quebrar. Daí as agressões e preconceitos eleitorais contra os que se opõem a tais objetivos. É preciso ganhar a eleição. Como em 1989 e em 1994.
- RUBEM AZEVEDO é jornalista em Brasília


