Conselhos franceses do Nenem Prancha - Lincoln Brazil e Silva
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de julho de 1998
Lincoln Brazil e Silva 
Nenem Prancha, o mitológico técnico de futebol de praia, entre suas máximas, sempre advertia sobre o problema quase intratável que a idolatria da galera e da mídia (que não deixa de ser uma grande galera eletrônica) criava para a pessoa do ídolo. E lembrava que em quase 100% dos casos este fora não mais que um menino pobre e de poucas luzes, que por jogar um grande futebol, crescia de modo desmedido frente a uma torcida fanatizada e inacabavelmente palpiteira, do qual suas jogadas interessavam, mas nunca o homem simples que as executava.
Experiente com as tragédias criadas em cima de seus discípulos, Nenem dava um exemplo brilhante: Não é justo jogar nas costas de um menino simples, que até ontem vivia na favela, a decisão de um campeonato, no pênalti do último minuto do segundo tempo; ele não tem estrutura para arcar com o sucesso, muito menos com o fracasso. E concluía sabiamente: Penalidade máxima que decide o título, deveria ser batida pelo presidente do clube. Profundamente sábio, muito humano, e um grande pensamento.
Estas considerações sobem à mente, quando saímos deste antropofágico e descabelado carnaval que a mídia provocou em torno dos jogadores de nossa Seleção, e que acabaram por deturpar e agitar aquilo que seria um grande campeonato mundial de futebol, que se repete a cada quatro anos. Ignoro se algum de nós aguentaria a pressão tola e descabida que foi despejada em onze brasileiros, muitos sem grande estrutura emocional, um deles com 21 anos apenas, e tragicamente o mais visado, que vestiram não mais a tradicional camisa da CBF, mas toda honra e glória e problemas e absurdos que tomam o País de alto a baixo.
O carnaval de baixo nível que predominou quase o tempo todo, foi semelhante aos absurdos criados em torno da Lady Dy ou do excelente Leandro. Neles, a dose foi tão grande e exagerada, que ninguém mais tolera ouvir o tema. Foi um capítulo de abuso da mídia, que transformou um assunto esportivo em ponto de venda de heróis, quando nenhuma guerra estava em andamento.
Não gosto do Zagallo, acho que o time poderia ter vencido a Copa, mas acho que nossas posturas tirariam a naturalidade de quase todos os seres humanos que conheço, especialmente cronistas que enriqueceram às custas dos jogadores, e dos diretores de mídia, que usaram e abusaram, sem qualquer respeito, de nossas cores, de nossas mulheres, de nossos sentimentos tão abalados nestes tempos cinzentos de desemprego.
Acho que se tivéssemos exportado nossa mídia e nossos excessos de patriotismo mal-colocado para a França, o Zidane teria um ataque de pânico, e o time nem teria ânimo de entrar em campo para o aquecimento, como ocorreu com nossos moços. Aceitem - uns mais e outros menos - neguem, se quiserem, mas foi a nossa inquietude e nosso patriotismo carnavalesco que entraram em campo e jogaram o tempo todo, contra aqueles onze atletas.
Querendo engatar uma quinta, acabamos com um menino de 21 anos indo para um hospital antes do jogo, e os outros dez sem sequer ter condições para um bate-bola de desconcentração. Aquilo não foi covardia, e sim um ambiente descabido de descontrole emocional de todos nós, e de oba-oba. Os franceses, com menos time mas com muito mais controle, ficaram com o caneco de patriotismo calmo e confortante para seus atletas.
Foi dose cavalar, e nossa, e da mídia, podem ter certeza. Futebol pede calma. Naquele clima, o Zidane atrasaria as duas vezes a bola para o Taffarel.
- LINCOLN BRAZIL E SILVA é médico em Londrina


